Catarse Fantástico | Entrevista com o autor de "O Menino que não sabia voar"


Em um mundo distante do nosso, existe um Vale cercado pelas Mães do Universo, montanhas imensas que protegem um grande segredo: seus habitantes voam. Lá, vive um garotinho, Kai Thuri, que é, misteriosamente, a única pessoa que não pode voar. Essa é a sinopse da obra "O menino que não sabia voar", de Yuri Amaral, que está em processo de financiamento coletivo no Catarse (clique aqui para apoiar).

E nós fizemos uma entrevista com Yuri Amaral, criador e artista da obra. Confira na íntegra:

Murilo Burns: Primeiramente, obrigado por aceitar nosso convite. Nos conte mais sobre você, sua formação, enfim, sobre quem é Yuri Amaral.

Yuri Amaral: Oi Murilo! Eu agradeço o espaço e o convite, também. Essa pergunta sempre é uma pegadinha, pois eu me enrolo todo pra falar (risos). Mas, basicamente, hoje me vejo hoje como artista, fazendo desde encadernação artesanal pelo Coelho Jujuba, com meu namorado Juliano, performando como a drag queen YALA (que também é personagem do multiverso do Menino), desenhando e roteirizando minha hq... me envolvo em bastante coisa e já passei por um bocado de lugares nessa minha ainda curta existência (trinta anos é pouco, tá?). Me formei em publicidade, trabalhei em várias agências de publicidade de Foz do Iguaçu, morei uns 2 anos em São Paulo, fiz um mestrado em Estudos Latino-Americanos pela Unila. E muito da minha trajetória, dos projetos que participei e das pessoas que conheci, estão, de alguma forma, presentes na minha história em quadrinhos, de forma consciente ou inconsciente. E eu sou uma pessoa intensa demais, as vezes assusto, pois consigo filosofar a partir de qualquer coisa. E por causa dessa minha característica, criar uma história é muito difícil, pois tenho que desmembrar meu pensamento e faze-lo passo a passo, literalmente. Viu, já divaguei um monte (risos).

MB: Como foi seu primeiro contato com os quadrinhos como leitor?

YA: Quando era criança, meu tio Fabiano levava na minha casa, todo domingo, o jornal e as revistinhas da disney, turma da mônica, heróis, e eu passava o dia inteiro lendo tudo. É uma lembrança muito agradável.


MB: Quando você resolveu começar a trabalhar com quadrinhos?

YA: Desde criança eu crio umas coisinhas aqui e ali, mas só comecei a levar a sério recentemente, de uns 3 anos pra cá. Até então, era mais "hobby", diversão, válvula de escape. Aí percebi: "se eu trabalhar duro e me planejar, no futuro, poderei trabalhar com quadrinhos". E estou na jornada! 

MB: Como surgiu a ideia de criar "O Menino que não sabia voar"?

YA: O Menino nasceu de um devaneio, sobre um menino pirata e seu amigo gigante. Esse menininho tinha quatro braços, era caolho e perneta. Ele morava em um lugar onde todas as pessoas voavam, e geralmente essas pessoas criavam seu próprio jeito de voar. Isso tudo na minha cabeça, nada desenhado de fato além do piratinha. Então, de uma história breve que eu tinha planos de fazer (ainda vou desenhar isso!) perguntas começaram a surgir: por que todo mundo voa? Por que ele não voa? Onde fica esse lugar? Quem são as pessoas que vivem lá? Seus líderes? Tem religião? E, até hoje, tudo que eu faço é observar e responder perguntas. Por isso o "universo" do Menino virou "multiverso" e só se expande. 

MB: Quais foram as fontes de inspiração para a obra?

YA: Minhas vivências, a bagagem que trago comigo da minha trajetória. Conceitos bonitos que vi em outros universos e histórias, tentei trazer pra minha, como a ideia em FullMetal Alchemist, onde tudo sempre é resolvido em grupo, não existe "um único herói"; ou mesmo a questão da representatividade em Steven Universe, tão marcante e presente de forma sutil e escancarada, ao mesmo tempo. Livros que conheci ao longo da minha vida, filmes, autores, relações... não consigo responder essa pergunta tão facilmente. Sempre fui muito curioso e já li muito sobre psicanálise, antropologia e inclusive meu mestrado em Estudos Latino-Americanos me ajudou a pensar o universo e contexto político do Menino de uma forma mais crua e sincera. 


MB: Como você enxerga o mercado de quadrinhos nacionais?

YA: Eu diria que há um mercado clandestino de quadrinhos nacionais. Pois vejo o independente muito distante e desprezado pelo mainstream e pelas grandes editoras. Como em toda área, também ainda existe uma certa hierarquia, legitimação de narrativas e autores... como vi falarem no twitter... quase uma monarquia instaurada. Então, digamos que, tem o "ápice", do encadernado capa dura todo coloridão lançado por editora que custa 80 reais, e tem a base disso, que é o impresso lançado de forma independente, por financiamento coletivo. Ambos são lindos, ambos são legais, ambos são certos. O que me deixa triste é a hierarquização disso tudo.

Sobre temas e qualidades... o quadrinho independente pisa muuuuito no mainstream, pois a variedade e diversidade tanto em temáticas quanto em representatividade entre autorxs é absurda, e isso é lindo, rico e acrescenta demais pras histórias e pro crescimento tanto de leitores como de autores. 

MB: Você resolveu publicar a obra através do Catarse, que é uma plataforma de lançamento independente, isso se deu devido a falta de apoio das editoras, ou você não chegou a tentar lançar através de editoras convencionais?

YA: Publicar de forma independente é mais divertido, apesar dos desafios. Você aprende, cresce, conhece pessoas, aceita ajuda e amor das pessoas, constrói algo grande em conjunto com outras pessoas. Não procurei nenhuma editora, pra ser sincero, e teria que conversar muuuuuito pra conseguir publicar através de uma. 

MB: Nos conte mais sobre a obra.

YA: Tem muita coisa pra contar, então vou colocar em tópicos, pra ficar mais fácil pra mim e pros leitores:

- A história nasceu simples, pequena mesmo, em um Vale, e se expandiu para um multiverso, complexo e delicado, com personagens muito específicos e com bastante coisa pra amadurecerem em suas jornadas.

- A narrativa é guiada por três personagens: Kai, Yala e Kubbo, e é o desenrolar da trajetória dessas três pessoas que revelará um mundo imenso para os leitores. Kai é o menino que não sabe voar, Yala é uma entidade do Reino dos Sonhos (e minha persona drag) e Kubbo é uma menina que vive nas Terras Livres (um país do mundo do menino).

- Existe um background imenso, mais de 200 anos de história. Por exemplo: já tem um livro da Yala prontinho pra publicar, já tem todo o roteiro de uma hq de umas 200 páginas (pelas minhas contas) narrando a história da primeira criança a voar... tem muita coisa pra contar, que precisa de tempo, de carinho, atenção e de pessoas que acreditam no projeto.

- Gosto de abordar temas de representatividade, mas de uma forma que complemente os personagens, que não seja como em filmes e novelas, onde o lgbt é alívio cômico. Quero construir isso como em Steven Universe, ou mesmo Korra (citando mainstreams, que é mais fácil de exemplificar). Sexualidade é algo delicado, e faz parte de nós, é uma de nossas muitas identidades.

- Inicialmente, eu não queria lançar o impresso, mas as pessoas - amigas, amigos que são apoiadores e leitores - pediram. E o carinho deles é tão genuíno que cedi.

- O menino se desenvolveu muito, também, graças ao meu projeto no apoia.se. Lá, há mais de um ano, construí uma amizade com mais de 80 pessoas que acreditam, apoiam e dão muito pitaco legal em tudo. Foi graças a eles que a história evoluiu, que meu desenho melhorou, que a narrativa se transformou e que o projeto no catarse disparou na primeira semana com 40%.
- No site do menino tem uma aba de contos. Gosto de resolver pequenos conflitos ou coisas muito complexas nesse formato, pois consigo fazer a história andar um pouco mais. Afinal, viver exclusivamente dos quadrinhos é pra poucos.


MB: Na sua opinião, quais são os cinco melhores quadrinistas independentes brasileiros?

YA: Rapaz, que pergunta difícil. Tem muita coisa boa que eu não faço ideia que existe, e acho que nomear os cinco melhores do Brasil com tanta gente boa por aí, pode não ser justo, então vou fazer diferente: vou nomear artistas que são incríveis mas que ainda não conquistaram o mundo da forma que merecem, e que eu acompanho o trabalho religiosamente:

- Má Matiazi: eu AMO o trabalho dessa guria. Ele é complexo, é extenso, é delicado e cheio de camadas. Tem quadrinhos, tem livro, tem spin-off, tem tanta coisa pra ler que olha. E é uma mulher poderosa, também.

- Jessica Lang e Andrio Santos: conheci o trabalho deles recentemente através de uma amiga (boatos de que existe uma rede de contatos de clubinhos do apoia.se...), mas o cuidado que eles têm com cada página, o processo criativo deles me conquistou. E a história vale cada minuto (eu tô desatualizado desde que comecei a campanha, me perdoa gente)... é o tipo de trabalho que você fica parado olhando e olhando. E eles têm um apoia.se, e o clubinho deles é uma delícia de estar!

- Dieferson Trindade: a última HQ que li e me fez ficar muito tempo parado, olhando pros desenhos, foi a dele. O guri tem um poder de narrativa que, se você estiver com o coração aberto, vai te tocar e deixar uma marca. Ele escancara a alma dele como poucos conseguem.

- Vini Gressana: os desenhos, a narrativa... é tudo muito completinho e redondinho, dá gosto de ler. Um quadro te leva pro outro quase que naturalmente. Sem falar no carisma dos personagens.

- João Miranda: Ele acabou de terminar de lançar o primeiro capítulo da HQ dele (tem no Tapas). O traço dele é absurdamente incrível, delicado e selvagem ao mesmo tempo (é possível isso?).

- Wes Samp: outro artista que consegue imprimir o coração dele (e o humor, o café e os problemas) nas criações que faz. 

Viu? Tem mais que cinco, e todos são bons de algum jeito.

A gente tem que sair da órbita do mainstream (até porque já existe um "mainstream do independente", onde figuram sempre as mesmas carinhas). E não é sobre ser o melhor. É sobre as pessoas darem espaço na vida delas pra obras que fogem do mainstream, porque tem muito trabalho independente que tem um tema exaustivamente explorado no mainstream, e acho que isso também deve ser levado em conta: leitores precisam sair de sua zona de conforto.

MB: Agradeço novamente pela entrevista e deixo este espaço para que você deixe um recado para nossos leitores.

YA: Também agradeço o espaço e o carinho em me deixar falar (porque eu falo muito!).

Por favor, apoiem não apenas o meu projeto, mas busquem criar a rotina de apoiar projetos independentes. Com vinte reais por mês você já consegue somar forças em ideias e sonhos de outras pessoas, e se aproximar de autoras e autores de forma genuína. Isso não tem preço. Financiamento coletivo é sobre afeto, sobre acreditar em coisas "que não dá pra tocar nem ver". E sim, posso ser um desses sonhadores, mas acho que é assim que fazemos o mundo ficar melhor: nos apoiando. Leiam mais quadrinhos nacionais e independentes, levem suas opiniões para os autores (com carinho, hein?), pois estamos prontos pra criar histórias incríveis pra vocês.

Obrigado pelo espaço, Murilo!

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