Crítica | Death Note (Netflix)


O anime de 2006, dirigido por Tetsuro Araki, abordava uma mente adolescente, conturbada pelas pessoas de seu convívio e pela sociedade corrupta, adquirindo o poder de matar a pessoa que quiser, estando próximo ou distante, em segundos, apenas anotando os nomes das vítimas em um caderno amaldiçoado, tendo em mente a imagem de seus rostos. A série animada possuía um clima sombrio e maduro para sua época, mas ao adaptar a obra japonesa para um longa metragem exclusivo para assinantes da Netflix, o diretor Adam Wingard, responsável por ótimas obras do terror como V/H/S e Você é o Próximo, e do péssimo Bruxa de Blair de 2016, tornou Death Note um romance mais insosso que a saga Crepúsculo.


Adaptar animes para o cinema americano não é uma tarefa fácil, podendo ser mais complicada que adaptar games. É só lembrar-se do constrangedoramente doloroso Dragon Ball Evolution. Mas ao analisar o remake de Ghost in the Shell podemos perceber que o resultado pode ser razoável, desde que muitos cuidados sejam tomados, já que adaptar um anime para um filme americano carrega a responsabilidade de ser fiel à obra original, e adaptar-se à linguagem e entendimento do público ocidental.


Para isso, a maioria dos personagens tiveram mudanças drásticas, alguns poucos para o bem, e a maioria fugindo completamente de lembrar os personagens icônicos do anime, mais pelas atuações que pelo roteiro. O protagonista Light (Nat Wolff), que usa o pseudônimo Kira para executar seus crimes, e sua parceira Mia (Margaret Qualley), cujo nome na série original era Misa Misa, são os personagens mais fracos do filme, que mostra seu constrangedor romance e os crimes cometidos por ambos como fatores mais importantes que suas personalidades, pouco exploradas pelo roteiro, além das atuações serem praticamente amadoras. Por sua vez, o detetive L, interpretado pelo ótimo ator Lakeith Stanfield, que teve destaque este ano no ótimo suspense Corra! de Jordan Peele, entrega os melhores momentos da obra, com uma personalidade forte e diferente da série original, sem tornar o detetive um cara cômico. O Deus da Morte Ryuk, criado em computação gráfica, carrega a voz de Willem Dafoe, sendo mais que fiel ao personagem original, tornando muitos de seus momentos marcantes e macabros, mas acaba caindo no alívio cômico.


Roteiro, direção, e atuações, com exceção da dupla de assassinos, não chegam a se tornar uma completa catástrofe, até o filme adaptar a icônica cena em que Kira, com sangue nos olhos, começa a executar os piores criminosos e corruptos do mundo em algumas horas. No anime, tal cena era carregada de rancor e vingança, provando que Light se tornou o deus do novo mundo. Mas no filme... flashes de pessoas morrendo de formas absurdas dividem Light em seu quarto trocando beijos e carícias com Mia, romantizando inutilmente o que devia ser macabro, ameaçador, sangrento. Sem falar que a obra continua de maneira sonolenta quase todo o tempo até o final, sem fazer o expectador se importar com Light, nem Mia, e talvez um pouco com L.


Death Note da Netflix poderia se inspirar em obras do terror atual como O Babadook ou Corrente do Mal, especialmente pelo personagem Ryuk, para elevar a atmosfera dramática e sombria da série original, mas preferiu dar mais importância para os momentos em que Light e Mia falam que se amam. Para um filme com cenas de mortes extremamente gráficas e viscerais, a relação entre Mia e Light deveria ser tratada com muito mais maturidade, já que a série japonesa é sobre a perseguição entre L e Kira, e não o amorzinho entre o assassino e sua donzela. Mesmo com uma trilha sonora marcante, não é uma obra que será lembrada, nem por fãs do anime, nem pelo público novo.

Nota: 6,0 / 10

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