Dia do Orgulho Nerd | Mas afinal, onde está esse orgulho?


Hoje é o dia do Orgulho Nerd, data que ao longo dos últimos anos passou a ganhar mais destaque. Para contextualizar nossa discussão, vamos falar sobre a escolha deste dia específico: 25 de maio. Aqui, existe a convergência de três datas muito importantes para o público nerd/geek: O dia da primeira exibição do filme "Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança", que ocorreu em 1977; o dia da Toalha, escolhido pelos fãs para celebrar a série de livros que começa com "O Guia do Mochileiro das Galáxias", de Douglas Adams; e também temos a data conhecida como “O Glorioso 25 de Maio”, criada pelos fãs do escritor Terry Pratchett para celebrar as obras da sua série "Discworld".

Gostaríamos de poder seguir falando sobre as maravilhas do nosso mundo. Sobre como é divertido e interessante ser nerd e ter tantos assuntos para discutir. Séries, filmes, livros e quadrinhos. Estamos num momento glorioso, não? De certa forma sim, mas o que queremos hoje é refletir sobre os últimos acontecimentos. O objetivo desta matéria é levantar algumas reflexões baseadas em notícias recentes. Há alguns dias, veio ao conhecimento do público que Zack Snyder teve que abandonar o seu trabalho no filme da “Liga da Justiça”. Até aqui, tudo bem. Em outras circunstâncias, a imprensa iria começar a especular, falar sobre a qualidade cinematográfica, sobre polêmicas no set de gravação, ou qualquer outro motivo que pudesse despertar e atrair o público (no caso, clickbait). Essa provavelmente foi a razão de o cineasta ter revelado o seu verdadeiro motivo para largar do projeto: Snyder precisava ficar com a sua família, pois a sua filha de 20 anos havia cometido suicídio em março deste ano.

Isso nos leva a questão: por que Snyder manteve essa informação sigilosa por dois meses? Temos duas teorias para apresentar a vocês. Ambas mostram um lado do mundo nerd ao qual quase sempre ignoramos, e que está se tornando um tanto nociva. 

A primeira teoria é a de que ele, inicialmente, não iria revelar esta tragédia para que a sua família pudesse superá-la sem o incômodo da mídia especializada. Para atestar isso, podemos notar que Snyder tentou trabalhar por dois meses, provavelmente para tentar ocupar sua cabeça e apaziguar um pouco da dor pela qual passava. Isso não poderia durar muito tempo, fosse devido a dor da família pela perda ou por sua própria. Como não dava para largar o trabalho sem uma enxurrada de boatos – maldosos ou não – da mídia especializada e dos fãs, ele teve que revelar a verdade. Sim, o cineasta revelou a verdade para que a imprensa e o público não começassem a levantar boatos sobre a sua competência como profissional. Ou até mesmo para que a mídia não fosse atrás da sua tragédia pessoal e fizesse um circo ao redor disso.

A segunda teoria diz respeito à reação do público em geral. O que surpreendeu quando a informação veio à tona foram os comentários das pessoas, que demonstraram uma total falta de empatia, de ética e, no geral, de humanidade. Vários desses "fãs" comemoraram a tragédia, pois ela fez com que Snyder largasse o trabalho que vinha realizando com os filmes da DC. Para que vocês possam entender melhor, segue um print tirado de uma notícia sobre a tragédia:


Sim, esta pessoa está dizendo que foi um sacrifício válido para que o filme pudesse ficar bom. Independente de a pessoa realizar ou não um bom trabalho em seu meio, nada justifica a perda de uma vida; nada justifica a reação dessas pessoas que se mostraram mais preocupadas com a qualidade de um filme do que com o bem estar de um ser humano.

Vamos refletir sobre o assunto por um momento. Poderíamos questionar como um ser humano seria capaz de valorizar mais um apanhado de personagens fictícios do que a vida de uma pessoa real. Mas essa não é bem a questão. O problema é mais profundo, mais grave. Começa com a compreensão de algo simples: tudo o que gostamos (filmes, séries, quadrinhos e livros), absolutamente tudo isso são produtos. Sim, nós vivemos em uma sociedade de consumo e também consumimos. Não somos diferentes de quem gosta de outros produtos culturais, que frequentemente consideramos “inferiores”. Mas adivinhem? Isso tudo é valorativo e se deve a uma estranha ideia, na verdade, quase uma epidemia de pseudo-conhecimento e pseudo-intelectuais que se espalhou pelo mundo nerd. Mas é ruim que o que consumimos sejam produtos? Sinceramente, se isso incomoda você, bom, então é você quem precisa se resolver e parar de projetar suas angústias na cena nerd e nas outras pessoas. Podemos pegar isso tudo e transformar em algo mais significativo, como uma ideologia? Óbvio. Provavelmente muitos de nós fazemos isso. Pelo menos, aqueles abençoados com o bom senso.

Mas o que esse papo sobre consumo cultural tem a ver com o assunto desse texto? Tudo. As pessoas estão celebrando um suicídio com a justificativa de que isso pode melhorar um produto. Todos aqueles que corroboram com o print ali em cima, que acham que o suicido da Autumn Snyder foi algo positivo ao filme, não estarão só pagando o bilhete do cinema para assisti-lo, estarão pagando também por um suicídio. Parece exagero, mas não é. Quem celebra e apoia esse tipo de atitude, tem participação na tragédia também, porque abre precedente. Essa é uma das principais questões sobre essa atitude: ela é extremista. Como em todas as instâncias da vida social hoje, o mundo nerd não está livre de gente extremista: tem para todo mundo. Não verdade, existe um nome para isso, para quando alguém celebra um suicídio, ou qualquer tipo de violência extrema, em prol de um produto ou de algo que essa pessoa julgue “superior”. O nome disso é fascismo. Claro que o fascismo tem gradações, especificidades, complexidades e não cabe a nós discutir isso agora. Mas a atitude, a semente, está lá.

Gostaríamos de convidar vocês para analisar a notícia. Sobre o que ela significa para o nosso meio. O que significa pertencer à legião de fãs de conteúdo nerd? Sim, hoje é o dia do orgulho nerd, mas o que você acha que significa esse “orgulho”? Segundo o dicionário informal, podemos chamá-lo de “um sentimento de satisfação e valorização”. Também podemos dizer que é “excesso de admiração por si mesmo”, e ir ainda mais fundo denominando-o de “atitude de desprezo ou menosprezo pelo outro". Por isso, deixamos a questão: o que é o dia do orgulho nerd para você?

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