Review | Legião


A história dos super-heróis na TV e nos Cinemas é extensa. Nos últimos anos vimos um boom absurdo, e com essa explosão veio a cobrança pela qualidade. Saímos de um mercado focado nas crianças para um mercado focado em adultos, onde poucas obras amadureceram de forma efetiva.

Das três maiores produtoras de cinema focadas nesse mercado, a Disney/Marvel se mantém no universo expandido focado igualmente em adultos e crianças, com exceção das séries para a Netflix, que amadureceram de forma sensacional. A WB/DC infelizmente se mantém perdida na tentativa de alcançar o público mais velho. Já a FOX, que antes era a mais odiada pelos fãs de HQ's, entre flops e filmes exagerados dignos de Michael Bay, evoluiu. Se redimiu com Deadpool, uma comédia escrachada muito boa e o western Logan, que está sensibilizando a todos no festival de Berlim.

Agora, a FOX nos presenteia com Legião. A série é um thriller psicológico, totalmente impar, que flerta com o terror, a ação e a comédia. Algo inovador, não somente para as histórias de heróis mas também para as produções seriadas. Exatamente o que pedíamos a tanto tempo!


O responsável por essa proeza é Noah Hawley, criador da série Fargo, baseada no premiado filme dos irmãos Coen, fazendo jus a expectativa monstra e ao universo simplista e bizarro da obra. Sem sentir o peso da camisa, Hawley se ofereceu para produzir uma série dos X-Men sob a bandeira do FX, canal fechado da FOX, também produtora de Fargo. Com colaboração da Marvel TV, Hawley elaborou um projeto especial, pedindo pouca influência da FOX e buscando construir algo independente da linha temporal atual dos X-Men, o que poderia vir a se misturar com esse universo. Porém, sua série seguiria seu próprio caminho. A FOX aceitou e deu total liberdade para que ele pudesse criar em cima do personagem.

Sem usar qualquer HQ de base, apenas os traços de personalidade do personagem, Hawley deu origem a algo original. As histórias se tornaram mais leves e surpreendentes, podendo seguir caminhos no roteiro que talvez não fossem possíveis com uma base excessivamente sedimentada. Essa receita, que deu errado em inúmeros filmes que tomaram muita liberdade com alguns personagens (Quarteto Fantástico que o diga), quando bem administrada acaba sendo a diferença entre o mais do mesmo e o genial.

O personagem das HQ's é velho conhecido, David Haller, filho de Charles Xavier e um dos mutantes mais poderosos já nascidos. Devido a gama extensa de seus poderes, cresceu com uma espécie de desordem dissociativa de identidades, criando várias personas dentro de sua mente. Tais personas são únicas, cada uma com seu poder, algumas bem peculiares. Há as que são benéficas e ajudam Charles e seus X-Men, outras beiram a psicopatia, sendo extremamente perigosas.


Sempre que Legião usa seus poderes, uma presença sinistra entra em suas visões e olha de canto, julgando, influenciando o mutante e instaurando medo, sendo o motivo final de uma das cenas mais sangrentas do episódio.

Com isso, vemos a construção de um seriado experimental digno da confusão mental do mutante. Lidar com narradores não confiáveis é um deleite para diretores e produtores, a possibilidade de usar a mente do personagem para projetar uma realidade impossível em nosso dia a dia é utilizada com maestria a décadas. Seja em sonhos, trips de drogas ou doenças mentais, já tivemos o prazer de ser presenteados com leituras perfeitas de tais condições. Réquiem para um Sonho, Apocalipse Now, Memento, são inúmeros os filmes que tratam destes assuntos. E pelo fato de Legião ser um dos mutantes mais poderosos do universo, podemos ver essa "viagem" multiplicada tanto quanto seu poder.

A série se passa, aparentemente, na década de 60. A tecnologia, as roupagens e as homenagens prestadas durante o episódio remetem a esta década. Vemos uma influência clara de Kubrick na construção do primeiro episódio, chegando ao óbvio ao batizar o instituto mental onde Haller está internado de Clockworks Psychiatric Hospital, fazendo menção ao clássico Laranja Mecânica. Ouvimos uma trilha sonora sensacional, trazendo clássicos do The Who e Rolling Stones para a tela e chegamos a uma das homenagens que mais gostei, o nome da "namorada" de David, Syd, com o sobrenome Barret. Sim, exatamente isso, temos uma Syd Barret na série. Para quem não conhece, Syd Barret foi o primeiro vocalista do Pink Floyd, que se afastou da banda por problemas psicológicos e deixou sua genialidade marcada para sempre no mundo da música.


A série também lida diretamente com a linearidade do tempo. Somos apresentados a diversas linhas temporais, passado e presente (talvez até futuro), que ajudam a semear a dúvida e que podem estar interligadas, afinal, tempo é um conceito relativo. Quem sabe Legião seja esteja muito acima de nossas percepções padrão. Outro dos mistérios a serem revelados durante os próximos episódios.

Este o maior trunfo da série, esta dúvida. Por lidar com assuntos que por si só já são interessantes, a exploração da sanidade humana e o quanto a loucura é, muitas vezes, apenas uma compreensão diferente da realidade. Adicionando a isso o pano de fundo do universo X, temos um campo imensamente fértil. Se Legião mantiver o ritmo e a qualidade, a única dúvida é quanto tempo vai demorar para que os mutantes do cinema apareçam na série.

ATENÇÃO, SPOILERS

Por favor, quem não assistiu o primeiro episódio não leia aqui! A teoria apresentada em alguns vídeos gringos é de que o "demônio de olhos amarelos" é o Shadowking. Para quem não lembra, ele é a entidade que possui Ororo, antes de ser achada pelos X-Men e virar a Tempestade. Ele é um dos telepatas mais poderosos do mundo, especializado em possuir pessoas com poderes que o interessem, sempre procurando um mutante mais poderoso que o anterior para usar em seus planos. Coincidentemente, a "versão humana" deste ser é também uma pessoa bem acima do peso, lembrando as aparições do episódio. Torço que seja mesmo, é um baita vilão que nunca foi utilizado!

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