Crítica | Logan


Meu primeiro texto no Nerdbucks foi uma longa analogia em duas partes entre Western e o "gênero" super heróis (leia a primeira parte clicando aqui). Ambos com origem nas HQ's, lidando com arquétipos heroicos clássicos e que se tornaram o negócio mais lucrativo dos cinemas em suas épocas.

Quando escrevi estes textos, alertei sobre a possível ruína dos super heróis na telona, via um padrão acontecendo novamente. Os Westerns foram saindo de mercado pela repetição excessiva, filmes parecidos, sem tanta profundidade, esquecendo as reais motivações dos personagens e sendo produzidos em escala quase industrial, gerando desinteresse por parte do público e prejuízos aos estúdios.

Os filmes de herói hoje se encontram no ponto alto de sua curva de interesse, milhões são gastos e bilhões voltam aos bolsos das produtoras. Heróis lado B ganhando adaptações, heróis lado C aparecendo em cameos, brinquedos sendo comercializados sem parar. Porém, o cinema real, a qualidade da película, vem a muito sendo deixada de lado por esse punhado de dólares a mais. Faltava um interesse real dos estúdios em passarem uma história interessante. Quando esperamos ver algum filme atingir o patamar de Nolan em Batman Dark Knight somos frustados, e apesar de termos filmes bons a maioria fica nisso, no bom, sem surpresas.


Desde seu primeiro trailer, Logan se mostra corajoso, buscando disputar com Nolan um lugar no pequeno panteão de filmes extra classe de heróis. Fui confiante ao cinema, acreditando saber a história do filme de cor, tantas foram as vezes que assisti os trailers, principalmente aquela obra prima ao som de Hurt de Cash.

Fui surpreendido. O filme não é cheio de mindfucks ou tenta reinventar a roda narrativa, a maioria dos caminhos que acreditei que seriam trilhados, não foram. Vi várias HQ's que serviram de referência direta e indireta serem usadas sem serem seguidas a risca, o que é ótimo. James Mangold, diretor do filme, bebeu daqui e ali, mas criou algo autoral e de quebra não entregou tudo nos trailers, pecado capital repetido à exaustão pelas produtoras

A história mostra um Wolverine aposentado, cuidando de Xavier – que já está com mais de 90 anos, cansado e cedendo rapidamente a idade – e trabalhando como motorista particular para conseguir comprar remédios. Durante um desses serviços, Laura, a X-23, aparece na vida do Carcaju e tudo vira de ponta cabeça. Parece simples, não? E é. No entanto, é feito com uma maestria tão grande que transmite uma profundidade impar. As atuações são impecáveis e o trio principal é irrepreensível. 


Patrick Stewart tem neste filme um dos melhores momentos de sua longa carreira como ator e, para alguém tão premiado quanto ele, isso é dizer muito. Mesmo com 76 anos, a todo momento se mostra para cima, com a saúde em dia – as dublagens em Family Guy/American Dad que o digam. Para este papel, Stewart se tornou um avô doente, que necessita de constante ajuda até para fazer as coisas mais simples. Cada nuance dada ao personagem, os palavrões, aquele "foda-se" a vida que todos nós damos quando chegamos a certa idade, os pequenos esquecimentos, as grandes lacunas e até as babinhas no canto da boca, dão alma a atuação. Se McAvoy quer ser lembrado nesta franquia terá de se superar e contar com a sorte de ter uma história tão boa quanto Logan para ser contada.

Outro destaque é a pequena Dafne Keen. Seu personagem poderia facilmente ter sido rebaixado a um "sideback bacaninha", um alivio cômico e fofo. É gratificante ver uma jovem estrela começar a brilhar de maneira tão forte. A X-23 é uma personagem extremamente complexa. Sendo um clone, criada em laboratório, sem pais ou família, cresce sem ter nenhum dos momentos que moldam nossa personalidade. Sem saber direito o que é certo ou errado, ela mal entende porque é o centro das atenções, porque esses homens maus fizeram ela sentir tanta dor e a perseguem tanto. Em momento algum na história do personagem das HQ's vi alguém tão preparado para assumir o manto como Wolverine, saí do cinema querendo ver quais seriam as próximas aventuras daquela menina feral.

Hugh Jackman mostrou porque é uma das melhores decisões de casting da história. Poucas vezes vimos características básicas do personagem serem ignoradas e os fãs não darem a mínima, tamanha a qualidade do ator. Em 17 anos no papel, Jackman teve destaque absoluto, mesmo tendo de lidar algumas vezes com pouco tempo de tela, roteiros fracos e companheiros medianos nos filmes que teve participação. A carreira solo do herói foi mais sofrida ainda, Wolverine: Origens é terrível e Wolverine Imortal ficou abaixo do esperado, devido a conflitos excessivos entre direção e estúdio. E na ultima de suas aparições. O ator pode finalmente mostrar que não é "só" o Carcaju muito elogiado em filmes como Os Miseráveis, O Grande Truque e Fonte da Vida, dando corpo a este, que é um dos mais icônicos personagens das HQ's. Sua atuação é incrível, colocando todo amor que usou para criar o Logan que tanto amamos em cada cena. Um adeus de categoria, para ficar na história do gênero.


O filme não é perfeito. Em alguns momentos o ritmo acaba se arrastando, o roteiro tem furos, há raras cenas que destoam do tom geral da obra e os vilões são um pouco genéricos, mas nada disso influencia a grandeza da obra. Fiquei inseguro no cinema, se o ato final fosse algo menos que excelente, quem sabe Mangold tivesse perdido o controle e me feito ficar extremamente decepcionado. Contudo, podem ficar tranquilos, Mangold acerta a mão e nos presenteia com uma obra prima.

Não tem nada mais poético que ver Logan trazer ousadia e vitalidade aos cinemas usando justamente o Western como ambientação e fazer não só uma despedida digna de Hugh Jackman e Patrick Stewart a seus personagens, como talvez iniciar uma era de ouro dos filmes de super-herói. Quanto mais entrevistas eu assistia, mais via que o próprio diretor quase não acreditou quando recebeu carta branca da FOX para fazer desta uma história sua, sem necessidade de puxar tanto um universo expandido, ou cameos de personagens queridos da franquia. Ao decidir contar apenas uma história inserida neste universo, fazendo uso de outros gêneros, com uma censura +18 (e sem medo algum de utilizá-la), Mangold conseguiu ser elogiado pela crítica ao ponto de ser convidado a apresentar o filme no Festival de Berlim – um dos mais conceituados da cena cinematográfica –, se tornando o primeiro filme de super heróis a ser apresentado em um festival de tal categoria e o filme +18 mais lucrativo da história do cinema em seu primeiro final de semana. 

Logan venceu a preguiça eterna dos estúdios, provou que o público gosta de ser exigido, que não precisam ter medo de apresentar assuntos complicados ou mexer fundo nas emoções do espectador. O cinema existe para isso, nos fazer sentir, chorar, rir e ter experiências além de nossas vidas comuns. Logan provou que é possível fazer cinema de verdade com heróis de HQ e espero que esta seja uma lição que fique a todos os estúdios.

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