Disney contra Disney - Moana e Zootopia no Oscar


É praticamente impossível imaginar que alguma outra empresa que não a Disney/Pixar possa levar para casa o Oscar de melhor animação. Isso não significa que ela seja a melhor produtora de animações atualmente, mas sim que é a maior e por algum motivo a mais adorada no Oscar - é fato. Nos últimos dez anos a Disney/Pixar venceu oito vezes, as únicas exceções sendo em 2012 com Rango (não havia nada da Disney ou Pixar indicado) e em 2007 com Happy Feet vencendo Carros, considerado por muitos o pior filme da Pixar. Em 2017 parece que não vai ser diferente.

Não me entenda mal, os outros indicados não são ruins. A Tartaruga Vermelha é lindo visualmente e carrega uma tonelada de poesia nas suas cenas bem desenhadas e que dizem tanto mesmo sem falas. Ma Vie de Courgette tem um visual atrativo e original comparado ao que estamos acostumados a ver. E Kubo e as Cordas Mágicas apresenta um uso maravilhoso de stop-motion, inclusive leva a minha torcida para o prêmio de melhores efeitos visuais e deveria ter sido indicado a melhor figurino também. São todos filmes competentes.

O motivo da Disney ter chances ainda mais altas de vencer esse ano não é só por seu prestígio. Dessa vez, a empresa tem dois filmes indicados ao prêmio. E não é um Pixar e um Disney competindo, são dois filmes Disney Studios – o que só havia acontecido em 2003, quando Lilo & Stitch concorreu com Planeta do Tesouro e em 2013 com Paranorman e Frankenweenie no páreo. Dessa vez os combatentes são Moana e Zootopia.

E qual deles será o melhor enquanto obra e aos olhos da Academia?



Animação, visual e design

Algo que deve ser confessado é que Zootopia não é uma revolução nem apresenta grandes originalidades no âmbito de animações. Não é o tipo de filme que te deixa de queixo caído devido a tecnologia utilizada nele. O único ponto nessa área que deve ser observado é que essa foi a primeira vez que a Disney se aventurou com animais antropomorfizados em 3D, desde 2005 com O Galinho Chicken Little, uma obra que além de felizmente ser esquecida, possuía uma péssima arte em questões de proporção e movimento dos personagens – o que é curioso pra um filme com tanta dança e momentos de ação. A animação de Zootopia é boa e válida mas não fez algo completamente magnífico nesse quesito.

Moana inova. A sua animação possui o ponto que mais me deixa babando em filmes, como em Procurando Nemo e o curta Piper exibido antes de Procurando Dory, água. Água!!! As árvores, a pedra, os humanos, os animais - Todos são bem feitos e dentro do padrão que Disney e Pixar tem desenvolvido. Mas a água é real. É como se tivessem gravado todas as cenas com água em um parque aquático. Como se fosse o filme do Mogli em que tudo é CG e só o Mogli é real. A diferença é que nesse tudo é CG e só a água é de verdade. Como pode ser tão perfeita?


Se Moana acerta fortemente em animação, erra em identidade. O design da Moana é lindo, o cabelo é realista e suas medidas também. Finalmente uma princesa com um corpo que pareça real. Mas para por aí. A personagem que apresenta ameaça e salvação como uma força da natureza mas falha na missão de representar uma montanha. Quando se deita é impossível vê-la obra da natureza, uma vez tendo-a vista mulher. Seria necessário, para toda a apologia a natureza de Moana, que ela fosse ao mesmo tempo as duas coisas e que não houvesse predominância de nenhuma. O design de Tamatoa é totalmente diferente do resto do filme, assim como sua música, e parece um personagem de Turbo, da Dreamworks, que se perdeu em Hollywood e entrou no set do filme errado. Isso sem mencionar que toda a ideia das tatuagens de Maui serem vivas poderia ser muito melhor aproveitada e não só aparecer em momentos específicos em que a câmera foca nelas. Poderia ser interessante para rever o longa e ficar reparando nas tatuagens, no que fazem, como reagem as cenas. Os pastores poderiam até achar algumas mensagens subliminares, pra lembrar os bons tempos de Disney.


Enquanto Moana acerta em 3D e erra em identidade/design, Zootopia faz o caminho inverso. Não surpreende na animação mas encanta com sua personalidade visual. O longa tem a manha de criar um universo com animais antropomorfizados em que todos se encaixem bem em corpos humanos, e não de uma maneira tosca como Galinho Chicken Little ou Bojack Horseman – que, na verdade, faz isso meio que propositalmente.


As músicas!


Não há dúvidas do que é que o Oscar prefere aqui. Embora esse ano a categoria de melhor canção original esteja tomada por La La Land com duas canções indicadas, Moana também garantiu sua indicação lá com How Far I'll Go, melhor música do filme, de fato.

Moana é um filme musical com ótimas músicas. Contém uma originalidade que consegue transmitir o que cada momento do filme passa. Diferente de longas como A Família do Futuro, Bolt ou Irmão Urso que utilizam músicas para ilustrar momentos mas sem necessariamente fazerem parte da trama, Moana se espelha mais em Frozen e Rei Leão ao tornar as letras das canções essenciais para a compreensão total do longa.


Até mesmo o personagem Tamatoa, que é completamente desconexo em visual com todo o resto do universo do longa, tem uma música bem desconexa ao resto das canções de Moana. No geral, utilizam-se de influência de música da Polinésia, utilizando aspectos culturais de lá e até mesmo a língua materna para deixar algumas canções mais características, tal qual o que a Disney fez com músicas africanas em Rei Leão 1 e 2 e Lilo & Stitch com músicas havaianas. 

Zootopia se enquadra no grupo de Bolt e A Família do Futuro - é um filme, apenas. Não pertence ao gênero musical então não chega a ter canções como um diferencial, embora Gazelle (o nome lembra a Adele, mas é dublada pela Shakira) cante Try Everything e encha meus olhos de lágrimas no final do longa.

Bruno Okada

Originalidade e a Academia


Na verdade, não há tanta chance assim.

Moana é um filme muito legal mas o perfil de Oscar não existe aí. Primeiro que são poucos os aspectos originais. Basicamente, Moana é uma personagem muito semelhante com Ariel, de A Pequena Sereia. A diferença é basicamente a época em que os filmes foram feitos. Enquanto Ariel é apaixonada pela terra e deixa tudo pra trás em nome de seu sonho, Moana é apaixonada pelo mar e tem um senso de responsabilidade que a faz continuar unida a sua família e seu local de origem mesmo estando completamente relacionada ao seu sonho também. É uma evolução de missão de vida, a mesma história de vida mas feito em épocas diferentes, em que os comportamentos são diferentes e a postura que se espera de uma protagonista feminina é outra.

Uma atualização perfeita de uma história de outra geração, mas ainda se encara como uma atualização e não algo completamente original.

O jeito como a protagonista é vista é algo inédito na Disney. Não é necessariamente a primeira princesa a não ter um par romântico no filme, e nem a personagem mais forte da Disney (Lilo e Nani ainda a vencem) mas é, com certeza, a primeira princesa de quem nunca foi cobrado um príncipe. Todas as outras são, homem é algo cobrado delas em algum momento da trama - Mulan, Anna, Merida. Todos entendem que o título do longa é Moana por uma razão. Ela quem manda nessa bagaça!

Mesmo assim, o filme ainda mantém coisas clichês e levemente previsíveis dentro de seus acontecimentos, não explora muito bem seu potencial visual e nem seu potencial de empoderamento da protagonista. Nem mesmo as criaturas não-humanas são autênticas ou orgânicas nesse universo, o que seria obrigatório em uma animação que tenta sempre deixar o meio-ambiente presente a ponto de  o considerarmos um personagem.

Não é um filme perfeito e será uma grande surpresa se levar o prêmio.

Mas por que Zootopia tem essa chance?


Zootopia possui metáforas não literais. Isso parece meio estranho de se dizer, afinal a característica principal da metáfora é justamente não ser literal. O que quero dizer é que o filme traça paralelos com o nosso mundo real. Ele simula as nossas cidades, nossos preconceitos, discriminações e pré-julgamentos. Uma coelha que quer se tornar policial em um mundo onde somente animais grandes, ferozes e fisicamente fortes (os predadores) podem ser policiais. Uma raposa que se tornou uma malandra após a sociedade deturpá-la desde criança com o estereótipo de raposas sendo malandras. Não é uma metáfora literal porque não é possível traçar uma semelhança com brancos e negros ou gays e héteros de forma que faça sentido, é sobre preconceito, queda de barreiras e aceitação de diferenças.

O Oscar ama esse tipo de coisa. A prova é o prêmio que deram pra Let it Go, a música de Frozen que tem MUITO a dizer além da trama do filme. Faz sentido ali dentro mas se eterniza de diversas outras maneiras. Zootopia é cheio disso. Sem contar as inúmeras referências á cultura pop, homenagens ao cinema e todo o lance cult que a Academia adora notar. Referências a Poderoso Chefão, Silêncio dos Inocentes, The Beatles, Foo Fighters, Star Wars e até os próprios filmes da Disney como Frozen, Moana, Enrolados e outros que são citados ou aparecem como easter-eggs no filme. Zootopia ainda emula o gênero de buddy-cop, o que a Disney não fazia desde o último Bernardo e Bianca.

É originalidade saindo pela culatra, técnica aprimorada e tema relevante. Uma vez alguém disse que o Oscar nunca premiou melhor filme, mas o melhor filme para determinado ano. Zootopia é o melhor filme animado para 2016/17 e será uma surpresa gigante se não for ele quem ganhar o prêmio.

Nessa batalha, quem ganha (90% de certeza) é a Disney. Nos resta torcer para o filme que preferimos.


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