A Hora Certa pro Retorno da Disney Latina!


Hoje, Donald Trump - o atual presidente dos Estados Unidos - proíbe o iraniano Asghar Farhadi, indicado ao Oscar por seu filme, O Apartamento, de comparecer à cerimônia. Tudo isso devido a restrição à imigração que proíbe qualquer iraniano que não possua um passaporte diplomático de entrar no país.

Okay, isso está em todos os sites de notícias e de cultura pop por toda a internet. Mas qual a relação de Donald Trump, dos Estados Unidos, cinema, Oscar e o título do texto?

Existe muita relação. Muita mesmo.


Origens de Zé Carioca e Panchito


A Disney é a empresa mais americana da indústria do entretenimento - Pelo menos na área de cinema. Tudo engloba a Disney.

Crianças praticam inglês assistindo animações da Disney, a música pop americana toca na Rádio Disney, muito da moda americana é ditada pelas Princesas Disney (se isso é ruim ou bom...), estudantes de animação DEVORAM concept arts tanto de filmes importantíssimos da Disney como Rei Leão/Pequena Sereia quanto de filmes não tão famosos como As Peripécias de Um Ratinho Detetive/Oliver e Sua Turma (até porque, como veremos aqui, todo filme da Disney é importantíssimo) e até mesmo em questões turísticas. Afinal, se um dia eu for passar um mês nos Estados Unidos e não tirar foto com um Mickey sequer... Eu não fui pros Estados Unidos.

Ou seja, os Estados Unidos é a Disney. E sempre foi assim, mesmo quando a empresa do camundongo ainda era um império recente.

Em 1942, quando Disney havia lançado apenas quatro longa-metragens (Branca de Neve, Pinóquio, Fantasia e Dumbo), o mundo estava passando por uma época conturbada - A Segunda Guerra Mundial.

Os países que não estavam participando ativamente estavam assistindo, torcendo para algum lado específico e optando mesmo que sem entender muito. E os Estados Unidos, como a maior potência mundial, está sempre envolvido nessas grandes situações globais. Assim surgiram curtas animados com as diversas abordagens que usavam a segunda grande guerra como um cenário.

Vitória por Meio do Poder Aéreo era uma aula sobre aviões como arma de guerra. Saindo da Frigideira dá dicas para o cidadão comum americano ajudar de alguma maneira as Forças Armadas (com Minnie como protagonista). E por fim, Hitler's Children - Education For Death acompanha o jovem Hans, criança passando pela "lavagem cerebral" nazista comum na época.


Porém, vários países da América Latina nutriam uma enorme simpatia pelo nazismo. Parte da chamada Política da Boa Vizinhança incluía arte, e a Disney como representante dos EUA fez sua parte com o filme Saludos Amigos (Alô, Amigos no Brasil).

O filme, sendo o "longa mais curto" da empresa, era uma grande propaganda da América Latina e era composto por quatro curtas que se passavam em quatro países diferentes.

O primeiro se chamava Lake Titicaca, e contava a história da viagem de Donald ao famoso lago situado na fronteira de Peru e Bolívia.


O segundo era Pedro, contando a aventura de um aviãozinho antropomórfico voando pelos céus do Chile.


O terceiro El Gaucho Goofy, estrelado por Pateta, interpretando um cowboy texano, vive aventuras inesperadas na Argentina.


E o último, estrelado novamente por Pato Donald, se chama Aquarela do Brasil. E é nesse curta que vemos a primeira aparição de Zé Carioca, o famoso papagaio brasileiro que existe no Universo dos personagens Disney.



E isso foi a Disney tentando conquistar amizades/público/aliados fora da Europa e de seu próprio país em uma época de guerra. Claro que ela não é uma empresa boazinha que faz tudo visando apenas a paz mundial, tudo aquilo foi em busca de lucro, público e sob a grande ameaça de perder muito dinheiro caso continuassem focando em histórias de origem europeia, como foram Branca de Neve e Pinóquio.

Mas essa busca por fãs fora de seus territórios já manjados não acabou aí. As coisas acabaram piorando pra Disney, e em 1945 surgiu o longa The Three Caballeros, chamado no Brasil de Você Já Foi à Bahia?. Sendo uma sequência para Alô, Amigos, esse filme era mais uma tentativa da Disney expandir seu mercado para a América Latina produzindo vários curtas situados em outros países, já que a distribuição de filmes americanos na Europa dominada permaneceu completamente proibida até 1949.

E assim surgiu Panchito!!

Panchito Pistoles!!!



Enquanto Zé Carioca era o responsável por representar o Brasil, o maior país da América Latina, Panchito, o galo, era o responsável por representar o México - O segundo maior, porém o mais próximo territorialmente e em cultura dos EUA.

Panchito é a grande estreia do filme. Em alguns momentos passamos por países já visitados em Alô, Amigos, como Argentina e Brasil, ainda guiados por Zé Carioca. Mas esse é o seguimento inicial do filme. Logo depois, todo o resto do longa se passa em território mexicano com cenas incríveis de Panchito guiando os outros dois caballeros pela terra em que nasceu.

Mas foi só isso. O contexto da guerra se encerrou, tais personagens não foram mais necessários e nunca mais os vimos. A não ser em episódios ULTRA especiais de seriados da Disney, cameos em alguns filmes e nos seus próprios quadrinhos (que mal são veiculados fora de seus países. Os quadrinhos do Zé Carioca, por exemplo, são publicados quase que exclusivamente no Brasil).

Panchito e Zé foram esquecidos pelos estúdios Walt Disney.


E por que é hora de voltar?


Aí as coisas se interligam. O contexto desse artigo, o título e a introdução começam a fazer sentido a partir de agora.

Esses personagens foram esquecidos e a Disney é cobrada há anos pelos fãs para que sejam resgatados, ganhem novos filmes ou aparições mais importantes.

Recentemente, apareceram em um curta com Donald e os fãs foram a loucura ao ver os três caballeros reunidos depois de tantos anos. DESDE OS ANOS QUARENTA.

E se foi como uma medida de conseguir fãs na América Latina, restaurar a confiança desses países nos EUA e demonstrar afeto para os não norte-americanos que personagens assim surgiram, nada melhor do que agora - um período em que estrangeiros são barrados do país que é governado por um Donald que odeia latinos - para tais personagens retornaram.

Uma das piadas que mais fazem em relação a Trump na internet (tanto americana quanto brasileira) é o fato de se chamar Donald, e todos lembrarem do Pato Donald. Usar essa piada unida ao fato de que dois dos melhores amigos de Donald são pássaros latinos seria uma jogada de mestre. Uma cutucada das boas que faria com que fãs da Disney, como eu, restaurassem o seu amor pela empresa.

Sem contar que possivelmente veríamos Trump xingando a Disney no Twitter. Duvido de nada. Quem xinga a Meryl Streep, é capaz de qualquer coisa mesmo.

DIGO MAIS.

No último Oscar, quando Divertida Mente levou o prêmio de Melhor Animação, quem entregou o prêmio foram os personagens Woody e Buzz de Toy Story. Quando, na cerimônia desse ano, Zootopia estiver recebendo seu prêmio... que tal se fossem Panchito e Zé Carioca o entregando?

Não, claro, sem um belo e inocente diálogo sobre Donald não ter vindo á festa. Ai ai, sonhar é bom. Muito bom.

Disney, traga os latinos de volta!!!!


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