Crítica | Assassin's Creed


O massacre dos games por adaptações desastrosas


Quando um filme baseado em um videogame de sucesso é anunciado, já podemos esperar por uma catástrofe colossal, devido a tantos filmes ruins inspirados em games. Fãs de games foram tão massacrados com adaptações terríveis de seus jogos favoritos, que sentem um arrepio de medo toda vez que um filme baseado em sua obra preferida está por vir.

Filmes de Super Mario e Street Fighter são amargamente lembrados pela péssima qualidade de atuação e produção. Resident Evil se tornou uma franquia de filmes exageradamente ruins. E as coisas não tem como piorar quando o assunto é Uwe Boll, eleito o pior diretor da história, responsável por adaptações de Alone In The Dark, The House of the Dead, Far Cry, e uma lista assustadoramente grande de filmes que são verdadeiras catástrofes.

Dentre os filmes de games, Silent Hill, Prince of Persia e Mortal Kombat se salvam apenas como filmes razoáveis e esquecíveis.

Ninguém esperava a Inquisição Espanhola


Um dos maiores erros cometidos por produtores e por fãs, é esperar que filmes baseados em games fiquem parecidos com filmes inspirados em super-heróis dos quadrinhos, pois são mídias completamente diferentes, e como os games são obras em que o jogador atua ativamente conforme suas habilidades e opiniões, é impossível que o filme passe a mesma impressão e satisfação passada pelo jogo.

A adaptação de Assassin’s Creed para o cinema, dirigida por Justin Kurzel, está sendo retalhada por muitos críticos especialistas, como se já esperassem que o filme fosse mal executado desde seu anúncio. O principal ponto criticado do filme são as cenas excessivamente lentas, especialmente no início.

O que ninguém esperava, é que Assassin’s Creed fosse um filme tão bem atuado, produzido e dirigido. As cenas criticadas são cheias de diálogos bons e relevantes para a história. Uma das primeiras cenas de ação onde o personagem Aguilar tenta resgatar uma criança tem poucos momentos de entusiasmo, mas o filme começa a crescer e convencer pouco antes da metade, e as cenas de ação a seguir são frenéticas e com fortes momentos de clímax.

O filme se divide em cenas interpretadas na língua inglesa onde o ator Michael Fassbender atua como Callum Lynch, um carcerário em um laboratório no ano de 2016, e cenas interpretadas na língua espanhola, onde o mesmo atua como seu ancestral Aguilar no século XV.

Os momentos de Callum são os mais arrastados, mas o personagem da era atual é mais rico em personalidade, devido a sua atuação em diálogos, ideais e da forma em que é manipulado pela personagem de Marion Cotillard, que cumpre bem seu dever no papel de Sophia Rikkin.

Quando o filme volta no tempo para mostrar Aguilar na Inquisição Espanhola, as cenas são carregadas de ação frenética com grandes momentos do personagem cometendo assassinatos e fugindo das autoridades, executando arriscadas manobras de parkour, escalando e saltando de um telhado a outro. Para que as cenas ficassem mais realistas e convincentes, atores e dublês foram responsáveis por todas as manobras e saltos do filme, com mais efeitos práticos do que computação gráfica, que foi usada apenas para criar os cenários de época.

Um dos maiores clichês em games da Ubisoft, presente nas séries Assassin’s Creed, Far Cry e Watch Dogs, são momentos onde o protagonista escala e alcança um ponto muito alto do cenário, e a câmera realiza uma rotação em torno da torre dando uma bela impressão da altura em que o personagem chegou, e da vastidão da cidade ou campo lá em baixo. Uma das melhores cenas de todo o filme é exatamente quando é apresentada a referência a esses momentos colocando à mesa todo potencial de direção de arte, fotografia, efeitos visuais, e trilha sonora que o filme pode apresentar. Tudo isso ao mesmo tempo. É impossível não ficar completamente arrepiado com Aguilar em uma arriscadíssima fuga de soldados armados chegando ao topo da torre mais alta, com a câmera mostrando de longe e acompanhando o voo de um pássaro ao redor, e o personagem se vendo na única opção de poder continuar fugindo, realizando o famoso salto de fé, que nos games se tornou clichê, mas no filme é apresentado de forma ICÔNICA!


Roteiro de respeito


Como já acontece comumente em filmes de games, o roteiro e protagonista não são os mesmos apresentados nos jogos.

Callum Lynch é dado como morto, e levado a uma prisão especial onde estão herdeiros do Credo de Assassinos, usando uma tecnologia chamada Animus, semelhante à do filme Matrix para acessar memórias de antepassados.



Sophia Rikkin coloca Callum na tarefa de viver as memórias de Aguilar para descobrir a localização de um artefato sagrado, chamado A Maçã de Eden, na promessa de combater a violência e trazer a paz mundial. Alan Rikkin, interpretado por Jeremy Irons, acaba ganhando os créditos por todo trabalho da filha Sophia.

O filme não detalha a história de Aguilar, explicando apenas sobre sua lealdade ao Credo, e focando nas cenas de combates e fugas pelos telhados.

A razão de Sophia querer encontrar o artefato, dizendo que quer buscar a paz mundial, não convence nem o menos entendido sobre os games. Mas o verdadeiro motivo acaba sendo uma pequena e boa surpresa quando revelado no final.


Mesmo com personagens nunca presentes, e se passando em um acontecimento nunca explorado pelos games, o roteiro está à altura da série da Ubisoft, que se destaca mais pelo gameplay que pelas histórias, e pode agradar pessoas que não conhecem a série de games, e também fãs que desejam que o filme seja fiel.

Salto de fé

Em minha humilde opinião, Assassin’s Creed foi muito bem executado, mas poderia se tornar uma bomba do calibre de Alone in the Dark se apenas um membro da equipe fosse diferente. O diretor Justin Kurzel fez poucos filmes conhecidos, e assumiu bem o trabalho de dirigir um elenco de atores premiados como Michael Fassbender, Marion Cotilard, Jeremy Irons e Charlotte Rampling. direção de arte, fotografia, figurino, trilha sonora, são elementos que não podemos negar que estão impecáveis e fiéis aos games da Ubisoft.


Certas críticas podem ser tanto cruéis quanto verdadeiras, mas Assassin’s Creed não carrega a maldição de inúmeros filmes desastrosos baseados em games.

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