A Pequena Sereia NÃO largou tudo por causa de homem!


Com a excelente popularização de movimentos como o ativismo negro, a militância LGBT e a luta feminista, não demorou muito para que, felizmente, isso chegasse ao mundo do entretenimento.

Nossos filmes, quadrinhos e games passaram a ser vistos através de uma ótica mais atual/problematizadora do que antes. Isso é excelente, afinal o nerd, de todas as pessoas, é o último que deveria querer ofender alguém ou ignorar quando alguém se sente oprimido.

E, obviamente, essa problematização toda chegou nas princesas Disney.

Mais recentemente, saiu pelo Buzzfeed uma lista de Adam Ellis chamada "34 vezes em que os filmes da Disney foram bem errados" onde algumas incongruências e problemáticas foram apontadas em Pocahontas, A Bela Adormecida, A Bela e a Fera, Alladin e, o foco deste artigo, A Pequena Sereia.

A grande maioria dos itens se refere basicamente a coisas que obviamente se encaixam na nossa atual visão de errado/inadequado, como casamentos arranjados, erros históricos e racistas com fatos manipulados em Pocahontas e o machismo presente em boa parte dos filmes de princesa.

Mas na hora de falar de A Pequena Sereia, um argumento me chama a atenção justamente por ser algo que já vi sendo dito por muita gente por aí e que sempre soou como uma grande mentira pra mim.
4. Ariel concorda em desistir de todas as coisas que são importantes para ela por causa de um homem. Um homem chato. Bonitinho, mas chato.
Muita gente fica indignada! MAS COMO ASSIM A ARIEL DESISTIU DE SER SEREIA SÓ POR CAUSA DE UM MACHO?? AFFE, MAS QUE TONTA!!!

É completamente passível que fiquemos espantados mesmo. Mas tem algo que a gente tá se esquecendo: Não foi por causa de homem, não! Se você presta atenção no filme desde o começo, você sabe que não é por causa de homem que ela trocou a vida do mar.

Voltemos à história do filme.


Desde a sua primeira aparição na animação, Ariel já está fazendo a coisa que mais lhe fascina no mundo inteiro: Tentar aprender sobre o mundo humano, a superfície, o que há fora d'água. Sua sequência inicial envolve ela e o peixe Linguado invadindo um navio (coisa de humanos), achando um garfo (coisa de humanos), um cachimbo (também usado por...hã...como é que fala? Humanos), se esforçando pra salvar tanto seu amigo quanto seus artefatos (de origem humana) de um tubarão. Quando este momento se encerra, Ariel vai se encontrar com sua amiga gaivota pra trocar ideia sobre a superfície. Afinal, os pássaros, nesse contexto (marinho), são os que mais têm contato com os...humanos!

Ainda depois disso, Ariel ouve um sermão de seu pai, o Rei Tritão, que fica enfurecido com a ideia de sua filha poder ser vista por pessoas.
- Você poderia ser vista por um daqueles bárbaros, por um daqueles humanos.
- Papai, eles não são bárbaros!
Pera aí...A Ariel acabou de defender os humanos!

E se isso tudo já não fosse o suficiente, após a discussão com seu pai a sereia nada diretamente para seu quarto. Lá, ela chora em meio a sua coleção de quadros, livros, castiçais, talheres, relógios, baús, instrumentos musicais e outras coisas de origem humana!

E pra encerrar, temos a princesa cantando Parte do Seu Mundo, a canção mais bonita do filme.

Essas coisas estranhas curiosas. Para mim são bonitas demais. Olhe essas aqui, preciosas. Mas pra mim ainda é pouco. Quero mais.
Ela admira sua coleção de objetos, fica admirada com tudo o que vêm da superfície e questiona cada vez mais o porquê de ser proibida de ir lá pra cima. Como ela mesmo diz antes "Como um mundo que faz coisas tão maravilhosas pode ser tão mau?". Mas ter esses objetos não é o suficiente. Ela "quer mais". Mas o que seria esse "mais"?
Eu quero estar onde o povo está. Quero ver um casal dançando. E caminhando em seus... como é que eles chamam? Ahh... pés.
Ela quer fazer parte deste mundo. Ariel quer estar lá. Ela quer ter pés, quer dançar, quer ver. Quer estar lá!
Poder andar, poder correr Ver todo o dia o sol nascer. Eu quero ver, eu quero ser, ser desse mundo. O que eu daria pela magia de ser humana. Eu pagaria por um só dia para poder viver. Com aquela gente, conviver e ficar. Fora destas águas. Eu desejo, eu almejo esse prazer.
Ela deseja, ela almeja. O que ela não daria pra ser humana? Ela quer ser, ela trocaria qualquer coisa por essa vida! Ariel é louca pelo mundo humano e daria tudo pra viver e conhecer este mundo!

E ela diz tudo isso em uma música cantada dois minutos antes de ver o Príncipe Eric pela primeira vez e, consequentemente, antes de fazer o acordo com Ursula de trocar sua voz por pernas.

Ou seja, Ariel, mais pra frente, realmente larga tudo que era importante pra ela (o pai e as irmãs, o lugar em que sempre morou e os amigos, incluindo Linguado) por um par de pernas. Mas não venham me dizer que foi por causa de homem não.

O sonho de ser humana já existia na pequena sereia muito antes do Príncipe Eric pintar na jogada, e ignorar isso é simplesmente jogar fora quase trinta minutos de filme.


Mas não me entendam mal. Não estou dizendo que o filme não é machista e que os diretores Ron Clements e John Musker acidentalmente criaram a princesa mais feminista do mundo. Ainda existem várias outras coisas que poderiam ser problematizadas na questão do sexismo nesse filme.

Tais quais como o Príncipe Eric se apaixonar e se desapaixonar de alguém só por causa da voz, ou o trecho "Só sei dizer que a você vou pertencer" da música que Ariel canta logo depois de Eric ser levado de volta para o mundo humano.

Mas o que não podemos é dizer que foi por causa de homem que Ariel abriu mão da vida de sereia sendo que, evidentemente, seu interesse pelo mundo humano já era gigantesco bem antes de Eric.

E não podemos esquecer também que um jeito bem eficaz de representar o feminismo em um filme é colocando uma personagem protagonista indo contra a autoridade que um homem impõe sobre a vida dela. E não é exatamente isso que Ariel faz, desobedecendo seu pai e ignorando os temores e conselhos de várias figuras masculinas (Tritão, Sebastião, Linguado, etc) para seguir a vontade de seu coração?

É, o feminismo se esconde em vários lugares.

Até mesmo no fundo do mar.


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