Resenha | A Festa do Século (Niccolò Ammaniti)



“Bem-vindos à Festa do Século. A Itália despedaçada num desenfreado e exclusivo Apocalipse.”
A festa em questão é o grande evento que dá norte ao livro. Será um evento como nenhum outro. Uma festa em Roma, num lugar conhecido como Villa Ada e orquestrado por um grande figurão excêntrico. Nós temos acesso à grandiosa festa através de duas perspectivas diferentes. Primeiramente, conhecemos Saverio, o líder das Bestas de Abaddon, uma seita satanista em decadência. Eles estão perdendo espaço para os Filhos do Apocalipse. Na internet, por exemplo, só se fala dos Filhos do Apocalipse. Então Saverio precisa pensar em uma jogada de marketing para colocar as Bestas no jogo. Algum ritual satânico, o sacrifício de uma virgem, qualquer coisa. As pessoas precisam conhecer o trabalho sério deles. E a maior festa que a Itália já viu parece uma oportunidade apropriada para colocar o plano em prática.

Do outro lado, está Fabrizio Ciba, um escritor renomado que vendeu milhões de exemplares do seu primeiro livro: A Cova dos Leões. Ciba é rico, mimado e extremamente egocêntrico. O universo se curva quando ele passa. Seu livro é genial, isso é inegável. No entanto, desde a publicação do best-seller, Ciba está sofrendo de bloqueio criativo e a editora já não tem mais paciência para ele. Ele foi convidado para festa e resolve comparecer para agraciar as pessoas com sua adorável presença... e talvez encontrar uma forma de salvar seu pescoço no processo. Como? Não importa. Ciba fantasia absolutamente tudo e todos que encontra e é levemente histérico.

Esses dois personagens acabam, de certa forma, trocando de status no início do livro. De uma forma bem subversiva, enquanto o satanista decadente retoma as rédeas de sua vida e começa a tomar decisões importantes – de uma forma bem perturbadora, diga-se de passagem – Ciba vê sua vida perfeita escorrer pelo ralo.

O livro tem um estilo bem marcado pelo humor cínico. O autor Niccolò Ammaniti faz uma crítica à sociedade consumista e hipócrita com um texto recheado de sarcasmo e passagens venenosas. Algumas pessoas acham a ideia de crítica à cultura de massa e a sociedade capitalista um pouco batida. Em minha opinião, é a maneira como Ammaniti escreve com essa temática que faz o livro ser tão interessante. É uma história pesada, mas recheada de acontecimentos absurdos e bizarros marcados com humor negro que rende boas risadas. Tem várias pequenas sacadas durante a narrativa e isso faz a diferença.


Eu separei várias passagens que achei que são interessantes para caracterizar os personagens e o tom do livro:
“- Das coisas que você prometeu, o que fizemos? – reforçou Murder. – Sacrifício humano não houve nenhum, e você disse que faríamos um monte. E os ritos de iniciação com virgens? E as orgias satânicas?”
“Estamos trabalhando. Nosso programa inclui a procura por novos adeptos e a realização de ações que possam nos destacar no mundo do satanismo. Somos poucos, mas bastante entrosados.”
“Era evidente que Satanás tinha usado Gerry Scotti para se comunicar com ele. Como era possível que, entre todas as infinitas perguntas que existem no universo, os redatores do programa tivessem escolhido justamente uma sobre Abaddon? Era um sinal. De quê, Saverio não tinha a mais pálida ideia. Mas era sem dúvida um sinal do Mal.”
“Uma dúvida atroz. Mas será que leu os meus livros? Precisava saber agora, logo, imediatamente. Era uma necessidade fisiológica. Se não leu os meus livros e não me viu na televisão, ela pode pensar que sou um qualquer, me tomar por um daqueles escritores medíocres que sobrevivem de apresentações e eventos culturais.”
“Depois da injeção revitalizante no ego, Fabrizio Ciba sentiu seu humor subir a níveis estratosféricos.”
“O dominador dos rankings, o terceiro homem mais sexy da Itália segundo o semanário feminino Yes (depois de um piloto de motocicleta e de um ator de sitcom mestiço), não podia em absoluto aceitar uma recusa. Isso provavelmente o obrigaria a anos de psicanálise.”
O autor

Niccolo Ammaniti nasceu em Roma, em 1966. Estreou em 1994 com o romance “Brachie”. É autor de, entre outros: “Fango” (contos, 1996), “Ti prendo e ti porto via” (romance, 1999). “Não tenho medo” recebeu o prêmio Viareggio 2001 e ganhou adaptação para o cinema em filme de mesmo nome dirigido por Gabriele Savatores.

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