Crítica | Doutor Estranho


Antes de começarmos o review, gostaria de fazer uma breve introdução ao personagem, que é um dos meus favoritos. Não vou falar sobre sua história canon, isso pode ser visto no filme, e sim sobre a sua importância para as HQ's. Este personagem pouco popular aqui no Brasil foi um dos pilares da Marvel em seu início. A tríade sagrada da editora, formada por Stan Lee, Steve Ditko e Jack Kirby, estava preparada para o sucesso, cada um com seus personagens preferidos, que mais identificavam suas personalidades, Stan Lee buscava o público jovem e junto com Kirby inventou o Quarteto Fantástico, os X-Men, Homem-Aranha e Hulk; e Ditko passou anos ajudando a sedimentação destes personagens até criar em 1963 uma das suas marcas que o eternizariam, Dr. Strange.

Strange, ao contrário dos outros personagens da Marvel, tinha uma aura voltada a temas adultos, muito pela personalidade sombria e introspectiva de Ditko, explorando a magia e o mundo oculto, tema que mais do que nunca estava em voga. As suas ilustrações iam a lugares nunca antes visitados pela editora, bebendo de artistas como Salvador Dali e M.C. Escher. Ditko fazia painéis complexos porém ao mesmo tempo cartunescos, indo na contramão das HQ's mainstream da época, porém mantendo-se fiel ao seu público. Coincidindo exatamente com a ascensão do rock n' roll, o inicio da música psicodélica e o movimento hippie, Dr. Strange foi recebido de braços abertos pela contracultura.

E ao contrário do que acontece hoje, quando vemos a música adentrando as HQ's, com letras e ícones aparecendo como easter eggs, Dr. Strange influenciou uma era com suas viagens astrais semelhantes a viagens de cogumelo e LSD, aparecendo em letras de bandas e sendo homenageado por diversos artistas. A influência foi tão grande que Strange aparece na capa do A Saurceful of Secrets da banda inglesa Pink Floyd, um dos pilares da psicodelia. Ditko era cada vez mais abraçado pela contracultura, vindo até se tornar amigo pessoal do incrível Frank Zappa, porém não era só admirado pela classe musical, mas também tinha fãs como o escritor Ken Kasey (autor de Um Estranho no Ninho). Outro fato curioso é que, como Frank Zappa, Ditko não usava drogas, tirando sua inspiração Objetivistas como Ayn Rand e sua Revolta de Atlas.


Toda essa mescla de psicodelia, rock n' roll e ocultismo fez com que Dr. Strange fosse meu personagem favorito desde minha adolescência. Logo, a anos espero esse filme. Quando Scott Derrickson foi confirmado fiquei feliz, gosto do trabalho dele, com filmes como A Entidade, O Exorcismo de Emily Rose e Livrai-nos do Mal. Scott sente-se em casa lidando com esses mundos dentro do mundo. A expectativa estava a milhões, mas havia um porém que sempre me freava, a fórmula Marvel, que nem sempre nos trás algo bom, faz um fan service animal e fica por essa. Eu queria mais, queria um filmão para marcar o cinema, assim como Strange marcou a música, porém acabamos vendo mais do mesmo.

Não me levem a mal, se de alguma maneira Dr. Strange fosse transmutado a 2005, na época de Batman Begins, é provável que teria deixado todos de queixo caído. Mesmo com alguns defeitos, esse filme é provavelmente uma das melhores histórias de origem já feitas para super heróis, porém este é justamente um dos pontos fracos. Estamos cansados de histórias de origem clássicas, foram mil e uma desde que o cinema começou abordar as HQ's, algumas até sendo repetidas. Por essas e outras, caso houvesse saído em uma época onde essas histórias fossem novidade o filme seria ainda melhor recebido. A própria Marvel acabou se prejudicando nesse sentido quando nos surpreendeu e lançou a aventura spielbergiana Guardiões da Galáxia, seguido do filme de golpe Homem-Formiga, duas histórias de origem surpreendentes e muito diferentes do que estávamos acostumados.

Para completar, o roteiro não trás nenhuma surpresa. Acaba sendo linear e previsível. E este acaba sendo o maior defeito do filme. O casting é absurdo, com atores de peso em todos os personagens principais, as suas atuações são firmes, Bennedict Cumberbatch me trouxe dúvidas quando foi escalado, fiquei com medo dele "Sherlockizar" o personagem, como já havia feito em A Teoria de Tudo com Alan Turing. Mesmo no início do filme fiquei com medo da Casa das Ideias querer trazer uma aura Tony Stark fanfarrona ao personagem, porém Cumberbatch acertou, deu seu tom mais bem humorado ao personagem, sem exagerar, e fez a perfeita ascensão de um cientista arrogante a um mago supremo. Me recuso a comentar as atuações de Mads Mikkelsen, Tilda Swanson e Chiwetel Ejiofor, os três são atores incríveis e foram perfeitos mediante os personagens construídos. Rachel McAdams não fica atrás como interesse amoroso de Strange e somos surpreendidos quando esta relação acaba sendo talvez a mais humana da Marvel. A novidade fica a cargo de Wong, feito por Benedict Wong, a repaginação necessária de um personagem datado ficou ótima!


A parte visual é um espetáculo a parte, a HQ depende demais deste quesito como ferramenta de construção, a responsabilidade era imensa e não podemos negar que a Marvel se superou nessa. Ben Davis, diretor de fotografia, junto com Scott Derrickson buscaram consultoria para essas cenas com um astrofísico multi premiado chamado Adam Frank, autor de artigos e livros explorando a conexão entre Ciência e Religião, para que suas cenas fossem cientificamente corretas. Mas como diabos algo mágico pode ser cientificamente correto? Bem, simples. Toda magia do filme foi baseada em teorias do universo quântico, teorias sobre a luz virando matéria e a influência dos fractais na existência. É óbvio que a primeira instância nada daquilo que o filme apresenta é possível, porém se fosse possível, aconteceria exatamente daquele jeito. Isso não só deu credibilidade para que as cenas fossem trabalhadas da melhor maneira, como conseguiu com que a criatividade e abstração da obra de Ditko pudesse ganhar uma forma constante e respeitosa.

Poucas vezes na minha vida como fã de cinema fiquei de boca aberta perante uma cena, em Dr. Strange fiquei pasmo mais de uma vez. Achei sensacional e ouso falar que disputa o Oscar de Efeitos Visuais pau a pau com Mogli (outra produção da Disney) e Rogue One, que ainda não estreou e pode nos surpreender. É o ponto forte do filme e onde tudo tende a se basear, na identificação visual.

Pena que os outros aspectos do filme não acompanharam tamanha genialidade. Façamos um exercício mental, imaginem se todo esse casting maravilhoso tivesse, aliado à fotografia, um roteiro profundo e desafiante, que exigisse desses atores seu melhor e fizesse o público pensar. Strange é um personagem complexo, como Mordo aborda em alguns momentos do filme, suas soluções sempre acabam criando outros problemas e é esse o próprio viés da magia, do oculto, onde tudo tem um preço e a sua luta é uma roda infinita, que nunca irá parar, muitas vezes flertando com o mal para fazer o bem. Caso o filme se arriscasse um pouco mais poderia ter entrado no Hall da Fama dos filmes de super herói e talvez até ter marcado época no cinema. Algumas cenas chegam nesse ponto, apenas para serem diminuídas com piadas artificiais. Scott Derrickson parecia aquela pessoa que avisa que não sabe contar piadas, conta do mesmo jeito e adivinha só? A piada sai horrível.

Dr. Strange é um ótimo filme para fãs de quadrinhos e do MCU, mantém a série de filmes formulaicos que agradam a muitos, porém peca na falta de ousadia e profundidade na história. Fica a expectativa que esse filme tenha sido de fácil compreensão para que no próximo outras camadas sejam exploradas. Continuo esperançoso, muito mais até que com outros personagens da editora. Acredito que Dr. Strange 2 será esse filme, o Dark Knight da Marvel, todo terreno está sendo arado para isso. Falta a editora decidir se vai criar coragem e romper barreiras impostas por ela mesma ou se vai se manter no conforto.

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