The Ranch - Um substituto moral de Two and a Half men?


Confesso que assisti The Ranch sem grandes expectativas, e talvez por isso mesmo a série tenha me cativado de forma absoluta. Simples, bem amarrada, sem nenhuma reinvenção da roda em cima do que vem dado certo desde sempre na TV americana. The Ranch é mais uma daquelas demonstrações de que certas fórmulas ainda têm muito a oferecer, quando exploradas da forma correta.

Vou dar as minhas impressões da história como um todo, sem oferecer spoilers e mostrar porque a sitcom de estereótipos, na minha sincera opinião, está sendo revolucionada quando para de fazer comédia com o oprimido e passa a fazer comédia com o opressor.

The Ranch e a real do americano médio

The Ranch usa, com maestria, o estereótipo do “cowboy fodão” para mostrar o quanto as coisas podem ser ridículas quando colocadas sobre a perspectiva adequada. Uma família disfuncional, centrada no rancho que dá nome à série, vive idas e vindas relacionadas com diversos problemas, sonhos e esperanças de vários americanos, e por consequência da influência cultural, de muitos brasileiros.

A família central, cujo protagonismo de Ashton Kutcher não fica exagerado, mas é relativamente evidente, já que a história toda se desenrola quando Colt, seu personagem na série, finalmente desiste da sua carreira de futebol americano que nunca deu certo e volta para o rancho do pai, Beau (genialmente interpretado por Sam Elliot), e tem de lidar também com o irmão mais velho Galo (Danny Masterson), que ficou no rancho quando ele foi embora. A mãe, Maggie, (interpretada de forma maravilhosa por Debora Winger), mora em um trailer atrás do bar de sua propriedade (o único da cidade, e o segundo cenário mais usado na série) e isso gera diversas discussões ao redor da série.


Em muitos aspectos, The Ranch pode não parecer muito diferente de outras séries do tipo, mas sem dúvida, pelo momento político dos EUA no momento, é uma série divertida e corajosa, ao fazer piada com o americano médio do interior republicano que vota piamente em Donald Trump.

A parte interessante é que as piadas são feitas em vários níveis e na maioria das vezes usando o patriarca da família, rancheiro tradicional e turrão, que faz, em muitos aspectos, o estereótipo padrão do eleitorado republicano. Só que, ao mesmo tempo, a série humaniza essas pessoas, mostrando que, apesar do pensamento retrógrado e da dificuldade que eles têm de compreender o mundo ao redor deles, eles não são más pessoas, apenas foram criadas dentro de outro sistema de crenças.

Alcoolismo, machismo, relacionamentos disfuncionais e a sensação de falta de escolha advinda de morar em uma cidade pequena, tudo isso é tratado com leveza e humor em The Ranch, fazendo dela, sem dúvida, uma série leve, a ser vista sem nenhuma pretensão, mas que ao mesmo tempo pode te levantar questionamentos que podem te fazer entender melhor o que acontece com o mundo hoje em dia.

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