Prólogo [traduzido] do novo livro de Anne Rice | Prince Lestat and the Realms of Atlantis


Prince Lestat foi lançado em 2014 e logo tivemos acesso a obra da autora Anne Rice no Brasil com o título de Príncipe Lestat. O livro possuía uma narrativa parecida com a narrativa presente em Rainha dos Condenados e foi muito esperado por todos os fãs que estavam carentes das histórias do vampiro mais fabuloso do mundo. E para o ano seguinte, havia a promessa de uma continuação intitulada provisoriamente de Blood Paradise, ou Paraíso de Sangue. Infelizmente a autora ficou doente e o lançamento foi adiado. Mas há pouco tempo foi anunciado que o livro finalmente sairia com o título de Prince Lestat and the Realms of Atlantis, ou Príncipe Lestat e os Reinos de Atlântida. Segundo a autora, a história vai fluir direto do livro anterior. Como ainda vai demorar para ser lançado oficialmente (previsto para 29 de novembro), especialmente em português, eu resolvi traduzir uma pequena parte que foi liberada na internet (Yei!).

Prólogo

Em meus sonhos, eu vi uma cidade ser devorada pelo mar. Eu ouvi o choro de milhares de vozes. Era um coro tão poderoso quando o vento e as ondas, todas as vozes daqueles que morriam soando em uníssono. Eu vi chamas que ofuscavam as luzes do céu. E todo o mundo foi abalado.

Eu acordei na escuridão incapaz de deixar o caixão na sepultura onde eu dormia por medo de que o sol escaldante queimasse os mais jovens.

Eu agora continha a raiz da grande videira vampiresca na qual fora certa vez apenas uma flor exótica. E se eu fosse podado, ou machucado ou queimado, todos os outros vampiros unidos a videira conheceriam a minha dor.

A raiz em si sofreria? A raiz pensa e sente e fala quando quer falar. E a raiz sempre sofreu. Apenas gradualmente eu vim a perceber isso – quão profundo era o sofrimento da raiz.

Sem mover meus lábios, perguntei a ele: “Amel, que cidade era aquela? De onde veio esse sonho?”

Ele não forneceu resposta alguma. Mas eu sabia que ele estava lá. Eu podia sentir o calor, a pressão suave na minha nuca que indicava sua presença. Ele não havia se ausentado, atravessando um dos muitos ramos da grande videira para sonhar ao lado de outro.

Eu vi a cidade morrendo novamente. Eu poderia jurar que ouvi sua voz chorando conforme a cidade se partia.

“Amel, o que isso quer dizer? O que é esta cidade?

Nós iríamos jazer deste modo na escuridão por pelo menos uma hora. Somente então seria seguro para mim remover a tampa do caixão e sair da cripta para ver o céu além das janelas recheadas de pequenas e idôneas estrelas. Eu nunca encontrei muito conforto nas estrelas, embora nós fossemos chamados de filhos da lua e das estrelas.

Nós somos os vampiros do mundo e nós possuímos muitos nomes.

“Amel, me responda.”

Perfume de cetim, madeira velha. Eu gosto de coisas velhas e veneráveis, caixões acolchoados para o sono dos mortos. E seu calor envolvente ao meu redor. Como um vampiro poderia não amar tais coisas? Esta é minha câmara de mármore, meu recinto, minhas velas. Esta é a cripta sob meu castelo, minha casa.

Pensei ouvi-lo suspirar.

“Então você viu, você também teve o sonho.”

“Eu não sonho quando você sonha!” ele respondeu. Ele estava contrariado. “Eu não estou confinado aqui, enquanto você dorme. Vou onde quero ir.” Seria verdade?

Mas ele havia visto, e agora eu via a cidade chamejando forte novamente no próprio cerne de sua destruição. Subitamente, tornou-se mais terrível do que eu poderia suportar. Foi como se eu visse a miríade de almas dos mortos libertas de seus corpos ascendendo na névoa.

Ele estava vendo. Eu sabia que estava. E ele havia visto em meu sonho.

Depois de algum tempo, ele me concedeu a verdade. Eu vim a compreender o tom de segredo em sua voz quando ele admitiu a verdade.

“Eu sei o que é.”, ele disse. “Eu sei o que significa”. Ele viu novamente. “Eu não quero mais ver”.

Ele me disse a mesma coisa na noite seguinte e então na noite posterior.

E quando olhei para trás, para aqueles sonhos, me perguntei quanto tempo nós teríamos passado sem nunca tomar conhecimento daquilo.

Teria sido melhor se nunca tivéssemos descoberto o significado do que nós vimos?

Teria importado?

Tudo havia mudado para nós, e ainda assim, nada havia mudado. E as estrelas além das janelas do meu castelo sobre a colina não confidenciavam nada. Mas as estrelas nunca o fazem, não? É a maldição dos seres ler padrões nas estrelas, nomeá-las, atribuir significados nos seus lentos percursos no firmamento e em suas aglomerações. Mas as estrelas nunca dizem nenhuma palavra.

Ele estava falando a verdade quando disse que não sabia. Mas o sonho havia soado um acorde de medo em seu coração. E quanto mais eu sonhava com a cidade caindo no mar, mais certo estava de ouvir seus lamentos.

Em sonhos e despertos, nós estávamos ligados um ao outro. Eu o amava e ele me amava. E eu sabia antes e eu sabia agora que o amor é a única defesa que possuímos contra a fria insignificância ao nosso redor – o Jardim Selvagem com seus clamores e músicas, e o oceano, o eterno oceano, pronto como sempre esteve para devorar todas as torres já criadas pela raça humana para alcançar o Céu. O amor supera todas as coisas, acredita em todas as coisas, aspira todas as coisas, suporta todas as coisas, diz o Apóstolo. “E o maior amor é o amor...”

Eu acredito nisso e eu acredito no velho mandamento do poeta-santo que escreveu centenas de anos após o Apóstolo: “Ame e faça o que você quiser fazer.”

Texto original disponível aqui.

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