Lovecraft: Uma Ficção Quase Real Demais


Eu admito que já gostava de H.P. Lovecraft antes mesmo de ter lido seus livros. Isso acontece porque ele é citado e referido à exaustão no mercado pop (nos boardgames então, nem se fala).

Acontece que, depois de começar a sua curta bibliografia (ele escreveu relativamente pouco, se comparado com outros autores), com uma maioria de suas histórias sendo contos, percebi que ele usa uma linguagem que eu já meio que imitava em histórias minhas, com um personagem narrador e histórias sendo contadas por meio de cartas e fragmentos de documentos.

Hoje estou aqui para recomendar, abertamente e sem medo, a leitura de todo e qualquer livro, conto ou historieta criada por esse gênio fraco, enfermo e extremamente eficiente em transformar o medo do desconhecido em algo muito pior.

Por que as histórias de Lovecraft são tão surpreendentes?

Antes de tudo porque ele criou uma mitologia tão absurdamente coerente, com tantos dados e detalhes, que muitos acreditam atualmente que ela realmente existiu. Ele fazia, com seu estilo e com a forma como ele lidava com as suas histórias, uma teia de referências bem tecida, a ponto de muitas pessoas procurarem por Arkham como se ela fosse uma cidade de verdade, se matricular na Miskatonic University, ou ainda encontrar uma cópia do Necronomicon no sebo da cidade.

Essas referências foram se tornando tão poderosas e relevantes porque, ao contrário de outros autores, Lovecraft sempre foi extremamente liberal em relação aos seus personagens. Seus monstros figuram em diversas outras histórias, com uma sensação extremamente parecida com a criação colaborativa ou os ambientes de software livre que temos hoje em dia, e que ainda são considerados loucura pelos defensores dos direitos autorais extremamente fechados.


Percebe-se, também, uma tendência de moldar, inclusive, as notícias da época dentro de seus contos de terror ancestral. As teorias mais atuais da época, muito rica em descobertas realmente surpreendentes, desde a teoria da relatividade de Einstein até a descoberta de Plutão, são resignificadas e deturpadas em prol de uma conspiração que envolve Deuses Monstruosamente antigos e cósmicos, que fazem com que a pobre mente humana entre em colapso apenas com a sua visão.

Finalmente, de uma forma um pouco diferente de seus predecessores, Lovecraft nomeou aquele medo inominável, o grande desconhecido que nos apavora quando a noite cai, ele deu motivos extremamente claros para os mecanismos de terro irracional que nossas mentes usam para se defender e, acima de tudo, criou uma ficção científica em que nós não somos os protagonistas: a coragem humana é apenas um gesto tolo e desesperado frente à colossal capacidade e poder das criaturas que ele criou.

Uma dica importante aqui é realmente ler os textos originais antes de consumir os produtos correlatos, como histórias relacionadas, jogos e similares, você com certeza estará mais próximo da loucura, mas vai se divertir muito mais.

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