Conheça | Mr. Robot


Olá caros leitores! Tudo certo? Meu nome é Nilton e já escrevo aqui no site faz um tempinho, com muito menos frequência que deveria, mas talvez vocês tenham trombado com meu material. Fui convidado a escrever uma coluna quinzenal sobre cultura pop a revista Vivaz, de minha cidade natal, e como o assunto tem tudo a ver com o Nerdbucks, estaremos publicando também por aqui! Minha coluna se chamará "Conheça" e vai introduzir vocês a diversos assuntos do Cinema e TV. Filmes, séries, documentários, musicais, tudo que for digno de nota passará por aqui, seja uma obra específica ou uma filmografia de um diretor, vou introduzi-los ao assunto com qualidade! Como nesta semana tivemos a 68ª premiação do Emmy, o Oscar da TV americana, achei justo abordar esta que foi considerada a maior surpresa pela mídia especializada. Rami Malek, ator principal da série, levou para casa o prêmio de Melhor Ator Principal em séries de Drama, desbancando nomes conhecidos como Bob Odenkirk (o Saul de Better Call Saul, spin-off da incrível Breaking Bad) e Kevin Spacey de House of Cards (série sobre o dia a dia da política americana, que passaria vergonha caso saísse uma versão brasileira.).

Esta pouco conhecida série já está em sua segunda temporada e é a sensação de crítica e público nos Estados Unidos, não só pela sua repaginada moderna de conceitos clássicos como revolução dentro da sociedade moderna (Huxley e Orwell mandam um opa!) mas também por seu marketing viral de primeira, envolvendo ações geniais em seu site, ultrapassando a barreira do mundo fictício para o real. O show segue a vida de Elliot Alderson, um hacker nova-iorquino que trabalha para uma empresa de segurança chamada Allsafe. Esta empresa provem segurança para uma das, se não a maior empresa do mundo, chamada E Corp (ou Evil Corp para os íntimos). A E Corp é uma amálgama de vários outros conglomerados reais, imagine se Google, Apple e o Banco do Brasil anunciassem uma fusão, tornando-se uma empresa líder no mercado de computadores, celulares, informações e crédito de consumo. No mundo fictício (ou nem tanto) da série, a E Corp seria dona de 70% do mercado bancário do planeta, tendo em suas mãos o futuro financeiro de todos seus habitantes.


Alderson é uma figura singular, durante o dia ele tenta viver algo relativamente normal, trabalhando junto com sua melhor amiga, Angela, em um emprego bem remunerado e desafiante, que seria o sonho para maioria das pessoas. Elliot consulta sua psicóloga Krista semanalmente para tratar de suas inúmeras condições (entre elas transtorno de ansiedade social, depressão profunda e transtorno dissociativo de identidade). Muito fechado, Elliot pena para manter um equilibro entre sua vida pessoal e o uso de drogas legais e ilegais, buscando fugir a todo custo de seus demônios.

Não satisfeito com sua vida mundana, acaba utilizando de seu conhecimento "hacker" para tornar-se uma espécie de vigilante cibernético, levando a justiça, tanto a da lei quanto a sua, aos golpistas, traficantes e pedófilos. Porém as doenças de Elliot são sua kryptonita, fazendo de sua brilhante mente, sua pior inimiga. Mas não vá achando que a série se limita a um herói clássico salvando o dia de ameaças diferentes toda semana, absolutamente não, ela passa longe disso!

Com um roteiro poderoso, uma fotografia linda e atuações incríveis, Mr. Robot desconstrói toda sociedade capitalista moderna. Busca desde seu primeiro episódio o questionamento, não só sobre a história da série, que se passa no ponto de vista do protagonista, que é pouquíssimo confiável, necessitando muita atenção, mas também nos faz parar para pensar sobre nossas vidas. Qual nosso verdadeiro valor? Será que realmente somos nossos donos, somos nós quem escolhemos? Será que o sistema nos serve ou somos meros peões em um grande jogo de xadrez surrealista?

Quando o líder de um grupo de hackers chamado "fsociety" entra em contato, Elliot vê sua vida mudar totalmente. Ilustrados pela persona de Mr. Robot, personagem que dá cara a essa egrégora, o grupo é uma versão fictícia de algo real, os Anonymous. Para quem não sabe, eles são ativistas cibernéticos que utilizam a máscara de Guy Fawkes, popularizada pela incrível obra de Alan Moore, V de Vingança, como representação. No mundo real, o grupo luta pela liberdade do povo, de acesso a informações sigilosas guardadas a sete chaves por empresas e nações, de expressão e contra corrupção em um geral, desbancando redes de pedófilos, traficantes humanos e vazando arquivos secretos com frequência. A contraparte fictícia possui basicamente os mesmos temas, porém quer dar um passo a mais. A "fucksociety" (ou foda-se a sociedade, em português) quer usar nosso protagonista como elo para uma nova humanidade, precisa dele para destruir os servidores da E Corp por dentro, assim zerando as dívidas de todas as pessoas do mundo, dando a elas uma nova chance.


Bebendo diretamente de referências da contra-cultura moderna como Clube da Luta, Matrix, V de Vingança, e revisitando clássicos como Laranja Mecânica, Taxi Driver e Psicopata Americano, Mr. Robot faz uma tentativa muito bem sucedida de usar essas obras clássicas para se tornar ela uma referência para revolução, que tanto busca essa nova geração. É embasbacante o quão Mr. Robot está acima da maioria das séries atuais. Temos o privilégio de viver em uma era onde todo investimento feito no cinema vai sendo distribuído também para televisão, que largou mão de fazer apenas programas repetitivos, em formatos cansados e sem profundidade e hoje recebe de braços abertos temas que provocam o pensamento do público, não sua estagnação.

Outro ponto positivo da série é que você não precisa ter um diploma em ciências da computação para curtir. Ela não busca um público específico e limitado. Ela busca todos nós, questionadores do sistema que somos subordinados e obrigados a obedecer. Em uma era onde cada dia que passa vemos mais pessoas infelizes, insatisfeitas com sua situação, Mr. Robot não coloca o dedo na ferida e sim abre muitas outras.

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