Catarse Western | Entrevista com os autores de Saint Alamo - Balas não sentem culpa


Olá pessoal, quem nos acompanha faz um tempo sabe que aqui no Nerdbucks a gente sempre procura incentivar os autores nacionais. Sempre trazemos obras criadas em terras tupiniquins e que apresentam bastante qualidade e ultimamente estamos mostrando algumas obras que estão no Catarse e precisam de sua ajuda para sair do papel (ou para sair em papel). É o caso da HQ Saint Alamo - Balas não sentem culpa, criada pelos gaúchos Jonathan Nunes e Rafael Conte.

Na história de Saint Alamo Raymond Castle é o violento e misterioso xerife da pequena cidade de que dá nome à historia, situada no velho oeste americano. Mas ele nem sempre foi um homem da lei.

Castle esconde em segredo absoluto seu passado criminoso, onde era um assassino e ladrão conhecido apenas pela alcunha de “Claw”. Porém, quando o xerife finalmente acredita ter deixado o passado para trás, um forasteiro chega à cidade obrigando-o a se preparar para uma guerra contra um velho conhecido, que ameaça não apenas acabar com sua integridade física, como revelar os seus segredos e destruir tudo o que ele construiu.

Os acontecimentos da história ocorrem entre 1878 e 1886, e se dividem em duas linhas temporais. A primeira mostra Castle em Saint Alamo tendo de lidar com os perigos que ameaçam sua cidade, enquanto a segunda mostra o passado do Xerife como fora da lei e os eventos que o transformaram no que ele é hoje.

A história parece ser bem promissora e a arte é muito bonita, trazendo animais como personagens. Eu conversei com Jonathan Nunes e Rafael Conte para que vocês possam conhecer mais sobre a HQ e o trabalho dos autores. Confira a entrevista na íntegra:


Murilo Burns: Primeiramente, nos contem como que surgiu a ideia de fazer Saint Alamo. Qual dos dois teve a ideia inicial e como foi dividi-la?

Jonathan e Rafael: A ideia surgiu quando estávamos começando a desenvolver alguns trabalhos com poucas páginas, para praticarmos. O Rafael sugeriu que criássemos uma história curta de velho oeste com animais, o Jonathan gostou tanto da ideia que em algumas horas a gente já tinha a primeira versão do roteiro. Produzimos essa história de três páginas, mas logo nos apaixonamos pelos personagens e pela cidade de Saint Alamo. Começamos então a desenvolver uma história maior e mais elaborada para eles. Isso foi ainda no fim de 2014, desde então estamos dedicando praticamente toda nossa atenção à HQ.

MB: De onde veio a ideia de misturar animais com faroeste? Vocês tiveram inspiração em alguma outra obra? Alguma delas vieram de outras mídias?

Jonathan e Rafael: Fizemos uma vasta pesquisa sobre a época e sempre fomos apaixonados pelo gênero western, seja em filmes, livros, quadrinhos ou games, e essas influências certamente se refletem na história. Porém a ideia de usar animais surgiu de maneira praticamente espontânea. Há outras obras como Fievel e Rango com temáticas parecidas, mas Saint Alamo é bem diferente das duas. A ideia dos animais surgiu porque acreditamos que isso daria mais personalidade a trama e um estilo visual bastante característico.

MB: Como vocês resolveram entrar para o mundo das HQ’s?

Jonathan:
Eu sempre fui um apaixonado por histórias, independente de qual mídia seja usada para contá-las, mas sempre tive os quadrinhos como paixão absoluta. Eu e o Rafael nos conhecemos há anos, fomos vizinhos boa parte de nossa adolescência e íamos a várias convenções de quadrinhos juntos. Foi quando começamos a sonhar em publicar uma HQ nossa. Um dia um concurso surgiu e produzimos algumas histórias para praticar e participar. Nunca mais paramos.

Rafael: Desenhava muito desde pequeno, por isso sempre procurava desenhos para reproduzir, seja na televisão, em revistas, mangás, HQ's, as vezes até em jornais. Porém não apenas desenhava, desde cedo já buscava conhecer mais sobre os personagens, então a leitura veio logo em seguida. Nos últimos anos, indo a eventos e sempre acompanhando os artistas pela internet, vimos que o mercado de quadrinhos estava crescendo muito aqui no Brasil, vi que não era só super-herói que vendia, artistas independentes estavam sendo reconhecidos e até vivendo com isso. Trabalhar com arte sempre foi um sonho meu, e ao ver isso, vi que esse sonho não era mais tão impossível assim.


MB: Falando um pouco sobre o cenário de quadrinhos brasileiro. Vocês acham que os autores brasileiros estão ganhando mais espaço ou em matéria de público nós ainda estamos muito atrás dos gringos?

Jonathan: Creio que quando a assunto é público e tiragem, o mercado internacional ainda tem uma larga vantagem. Porém, a cada dia os artistas nacionais vêm ganhando mais espaço não apenas nas prateleiras das livrarias e dos leitores como também na mídia. Isso é ótimo. Acredito que o quadrinho brasileiro está vivendo uma de suas melhores épocas, e deve crescer ainda mais.

Rafael: O mercado internacional sempre foi muito forte, porém hoje há leitores que estão buscando algo diferente nas histórias, e aí que entra os artistas independentes, onde podem falar o que quiserem, em diversas áreas, assim atraindo esse público. Esse mercado de quadrinhos independentes está crescendo muito, a cada dia está tendo mais eventos relacionados a quadrinhos, dos quais a maioria tem o Artists’ Alley (na CCXP), onde você pode encontrar muitos artistas (sempre simpáticos) com suas obras. Então além de você levar um HQ diferente, de quebra está contribuindo com o mercado independente.

MB: E Como vocês acham que é a receptividade que o mercado nacional tem com os novos artistas?

Jonathan: Acho que como em qualquer outro mercado, o público não irá confiar plenamente no seu trabalho sem ter material predecessor para avaliar, mas no caso dos quadrinhos há uma certa receptividade e solidariedade para com os novos artistas bastante animadora. Tanto por parte de artistas quanto de público. Isso é ótimo. Temos recebido muito feedback positivo e isso é animador.

Rafael: Pra quem está iniciando nesse meio, realmente não é nada fácil fazer o público confiar no seu trabalho, porém a internet está aí, estamos sempre colocando bastante coisa na página de Saint Alamo e em outros sites como Behance, DeviantArt, Pinterest, etc. Assim o público tem muito mais informações do nosso projeto, ficando mais próximo a ele e aos poucos dando mais confiança. E a receptividade até então foi muito boa.

MB: Cada vez mais podemos ver artistas brasileiros indo trabalhar no mercado norte-americano de HQ’s, muitos em grandes editoras (como Marvel e DC), vocês acham que isso tem ajudado a aumentar a visibilidade dos artistas tupiniquins? E vocês tem essa ambição de algum dia conseguir trabalhar fora?

Jonathan: A entrada de tantos artistas daqui nesses mercados consagrados provam o quanto os artistas brasileiros são competentes, e isso com certeza traz mais atenção para o mercado nacional. Quanto a trabalhar fora, meu objetivo no momento é levar Saint Alamo ao máximo de leitores possível. Aprender e melhorar como escritor a partir do feedback da revista. Minha única ambição no momento é continuar contando boas histórias.

Rafael: Ouvi falar uma vez que o brasileiro era visto como mão-de-obra barata, e nos últimos anos não foi mais assim, nós brasileiros estamos sendo reconhecidos como pelo nosso trabalho de qualidade. Sobre nossa ambição, estamos focados em Saint Alamo e numa possível continuação, seja em português, inglês, e quem sabe em mais línguas. Também queremos sempre levar boas histórias para as pessoas e quem sabe também incentivá-las a entrarem nesse mundo.


MB: Na divulgação a gente conheceu um pouco sobre Castle, o protagonista. Vocês podem falar um pouco sobre os outros personagens?

Jonathan e Rafael: Claro. Castle costumava ser um ladrão e assassino antes de se tornar xerife, boa parte da confusão atual em Saint Alamo vem de sua vida pregressa. A história tem dezenas de personagens, mencionaremos alguns dos principais aqui para que a lista não fique muito extensa. Temos Silas "The Butcher" Dutcherbach, o sanguinário líder da gangue que Castle um dia participou; Carrie, sua antiga paixão e companheira de crime; seu irmão Thomas, um folgado que sempre viveu lucrando nos ombros de Castle; Ollie, o dono do Saloon e melhor amigo do xerife; e Fada do Dente, um Gorila gigantesco que, além de braço direito de Silas, adora arrancar os dentes das pessoas que mata.

MB: Como está sendo a receptividade do público até o momento?

Jonathan e Rafael: Muito boa. Recebemos vários elogios ao material que apresentamos até o momento. Sabíamos desde o início da dificuldade que seria publicar a HQ no modo como a concebemos (80 páginas coloridas em alta qualidade de impressão e material), ainda mais se tratando de dois artistas novatos, mas até o momento estamos tendo uma ótima experiência com o processo e isso tem nos animado bastante.

MB: Para finalizar eu deixo um espaço livre pra vocês mandarem um recado para os leitores ou qualquer outra coisa que vocês queiram falar (pode mandar beijo pra mãe, pro pai, pro cachorro...).

Jonathan: Bem, eu gostaria de pedir para que os leitores visitem e conheçam a campanha de Saint Alamo no catarse (catarse.me/saintalamo_parte01). Temos tudo muito bem explicado lá, e há uma porção de recompensas bacanas que vocês podem escolher para colaborar. Mas mais do que isso, visitem a seção de quadrinhos do catarse com mais frequência, tem sempre diversos projetos legais aparecendo por lá, além de vários artistas que merecem o nosso apoio. E agradecer ao peço do Nerdbucks pela oportunidade e atenção, o trabalho de vocês é demais.

Rafael: Quero dizer aos leitores que ainda não leem as histórias independentes, deem uma chance para esses artistas, visitem o catarse, visitem eventos, feiras e até nas páginas do Facebook, vão achar muita coisa e com certeza se surpreender com a qualidade. Aos que já tem o costume de comprar essas HQ's, peçam um aumento de salário, porque o tanto de coisa boa que tá vindo, tá complicado né?! Também um muito obrigado por contribuírem com esse mercado que está crescendo cada vez mais, dando mais oportunidade de manter e trazer novos artistas para o Brasil. Quero mandar beijo pra mãe, pro pai e pra Mi, estes que sempre me incentivaram a desenhar, pro Spike (meu cachorro) por me inspirar a criar um Seth (ajudante do xerife), e pra Luna (minha gata) por ajudar a criar a Carrie. Obrigado a vocês do Nerdbucks pela oportunidade.

Se gostaram, não deixem de apoiar o projeto no Catarse, clicando aqui.

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