Crítica | Esquadrão Suicida


Primeiramente preciso transmitir um pensamento que as vozes da minha cabeça estão falando. Críticas não são feitas para tomar lados. Filmes não são um Grenal, não tem porque cornetar gratuitamente ou elogiar por elogiar. E digo mais, não as levem tão a sério, a crítica já detonou Blade Runner, Led Zeppelin, Apocalipse Now, Rolling Stones... Então a usem como base para argumentos, para sedimentar uma ideia ou expandir horizontes, mas não como verdade absoluta, cada um tem uma opinião única e válida, que é construída de acordo com suas próprias experiências, então, só sejam felizes.

Agora, sobre Esquadrão Suicida, é justamente isso, um duelo de opiniões. Percebi dois grupos distintos quando o assunto é este filme, um grupo que foi ao cinema buscando assistir um filme ímpar, algo que ia mudar o gênero dos super-heróis, uma revolução no cinema baseado em quadrinhos. Enquanto outro grupo foi com os pés no chão, já receoso e esperando o pior, grupo este que estava lá no fundão do Hype Train, meio deslocado e conversando com as poucas pessoas que não estavam vestidas de Coringa e Arlequina. Eu fiz parte deste último grupo.

Fui ao cinema já esperando um novo Wolverine: Origens, uma cusparada na cara, daquelas de deixar roxo. Logo, saí satisfeito! Mas isso não faz o filme realmente bom, não adianta se iludir, ele só cumpriu as baixas expectativas que tinha e até me surpreendeu em alguns momentos.

Entendo que quem foi assistir um bom filme, uma peça diferenciada no quesito cinema, deva ter ficado muito bravo. Ele é cheio de falhas, algumas que devem ter prejudicado e muito a apreciação dessas pessoas. Vou buscar comentar algumas dessas falhas, porém sem focar tanto nelas, nem tudo neste filme é terrível como pintam.


O filme tem uma edição ridícula, talvez uma das piores que já tenha visto em blockbusters. Tu vê que o ritmo raramente engrena, parece sempre algo forçado. Mesmo quando engrena, algum corte ou cena mal colocada acaba prejudicando o fluxo de ideias, tirando sua grandeza.

A trilha sonora parece uma daquelas seleções gravadas em CD's piratas nos anos 2000, onde tu pedia para um amigo diferentão uma mão com seu gosto musical e ele te devolvia aquela iniciação em música bacana por meros 5 reais. Sim, são várias músicas boas naquilo, mas não adianta tu ouvir só um hit sem manjar do álbum inteiro, fica gratuito e pouco marcante entendem? E as trilhas sonoras e scores são um "álbum inteiro", algo para dar tom no filme, ajudar na construção e em Esquadrão Suicida foi algo óbvio, algumas cenas eram spoiladas pelas músicas que começavam a tocar. São belas canções acompanhadas de cenas incríveis. Fizeram ótimos videoclipes, mas não ajudaram em momento algum a trama.

Trama esta que é fraquíssima, sem grandes motivações, muitas vezes sem sentido e apressada. Me lembrou muito os blockbusters padrão a lá Michael Bay. Só um fino fio condutor para um amontoado de ação. Mas eu já esperava isso, logo, nenhuma surpresa aqui.


Agora analisando os personagens individualmente, começando por algo que me irritou demais! PORRA WILL SMITH, tu não sabe ser vilão? Realmente não pode fazer a porra de um vilão? Star System não deixa? Tem que ser a sempre o "bom moço"? Nunca na história do Esquadrão Suicida e dos Thunderbolts da Marvel eu vi alguém tão motivado a fazer o bem. Se em um filme feito sobre um bando de desajustados, assassinos e ladrões o Sr. Smith não conseguiu juntar coragem para fazer um vilão propriamente dito, acredito que nunca iremos vê-lo nessa condição. O que é péssimo, gosto da atuação do cara, mas parece que seus papéis sempre seguem um clichê próprio, ele virou um personagem.


El Diablo é um ponto alto, principalmente por sua importância não ter sido entregue nos trailers. Esse fator surpresa fez com que um personagem com uma construção ok ficasse bem destacado. Mesmo sendo um destaque acabam forçando a barra. Voltam três vezes para suas motivações, três vezes. Uma seria suficiente e sobrariam duas cenas para mostrar motivações de outros personagens.


Magia ficou bacana, muitos estão falando em uma atuação ruim da Cara Delevigne mas ela atuou tão bem quanto uma modelo da Vogue poderia atuar. Realmente não achei sofrível como muitos falaram, claro que as dancinhas a la Um Drink no Inferno não ajudaram muito, mas todo plot dela se tornando vilã foi mal construído. As cenas dela como aquela bruxa maldita, vinda diretamente de um filme de horror foram ótimas, as cenas dela como uma vilã maluca overpowered ficaram ruins. Mas aí culpa-se o diretor.


Arlequina dispensa demais comentários, foi a estrela do filme. Margot Robbie acertou em cheio na sua atuação. Harley se mostra alguém muito inteligente, que usa de sua beleza e sedução para atingir objetivos próprios. Seu conhecimento de psicologia foi mostrado sutilmente, sem exposição exagerada. Saí do cinema querendo ver ela ser mais explorada, mostrar mais ainda seu lado manipulador e inteligente. Ela é sexy, sabe disso e usa como uma arma, foge daquele clichê de donzela em perigo e também do clichê heroína destruída, que usa da raiva ou medo como motivação. A motivação dela é ela mesmo, egoísmo puro. Se você está entre seus amigos, ótimo, se está entre seus inimigos... Lamento muito.


Jared Leto como Coringa impressiona. Era de se esperar que a DC escolhesse algo nunca mostrado em seus outros Coringas. O Coringa de Romero é uma representação da Era de Prata dos quadrinhos, inocente e bobo; o Coringa de Nicholson é a pura Era de Ouro dos quadrinhos, um mafioso lúdico; enquanto Ledger vem da Era de Bronze/Mordena, um psicopata, um agente do caos. Leto não é nenhum desses, bebe de todos e trás um novo Coringa às telas. É alguém poderoso, muito inteligente, tem contatos e que assim como Harley, usa de sua loucura como arma. Realmente é uma força a ser temida pelo Morcego. Vemos aqui o príncipe palhaço do prime em seu auge, uma pena não ter aparecido tanto quanto poderia.


Sobre os membros menores do Esquadrão, Ayer pegou personagens difíceis de traduzir as telonas como Killer Croc, Capitão Bumerangue Katana, e conseguiu deixá-los bem interessantes! Apenas para não os utilizar em momento algum. As atuações foram boas, as fantasias maneiras, as motivações profundas, porém faltou tempo para os caras aparecerem. Se cortassem todas as cenas dos três não faria diferença alguma. O que é uma pena, já que os atores estavam muito envolvidos em seus papéis e adoraram a gravação. O mesmo podemos falar sobre Rick Flag, porém este não tem boas motivações, acaba sendo só um escapismo bem fácil para o roteiro.

É óbvio que a ação veio a ser o ponto alto, cenas de luta bem coreografadas e divertidas fizeram a experiência ser muito boa para mim. Como comentei antes, são vários videoclipes de altíssima qualidade que formam um filme. Algumas cenas interessantes poderiam ser até melhores, como a cena do bar, amplamente cortada na versão final. Inclusive se David Ayer não tem interesse em lançar uma versão estendida será um baita desperdício. Muitas cenas dos trailers não apareceram no filme final, inclusive outras que só ficamos sabendo por conversas e talvez apareçam como extras.

Esquadrão Suicida é um filme limitado, pouco aproveitado, com um potencial enorme que trava em decisões de uma produtora desesperada e um diretor passivo, que aceitou todas as intervenções e defende sua obra até os dentes. E mesmo com esses pesares, é uma peça boa, onde se aproveita muito mais que em inúmeras falhas desse gênero nos últimos anos. Várias dessas elogiadíssimas pela crítica. Vale o ingresso, fácil.

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