Resenha | Solomon Kane, A Saga Completa (Robert E. Howard)


Em um mundo dominado por seriados, cinemas, HQs e ebooks, quando lembramos do gênero "Fantasia" poucos lembram de Robert E. Howard. Com a popularidade imensa de Game of Thrones e a obra genial de Peter Jackson década passada, os primeiros nomes que nos vem a mente são Tolkien e Martin. Porém é provável que nenhum deles teria sequer existido caso Howard não tivesse sido publicado há quase um século. 

Considerado o pai da "Espada e Feitiçaria", seus personagens são memoráveis. Conan, Kull e Solomon Kane foram muito populares no início do século passado. Publicados por revistas especializadas em contos de fantasia, como a Weird Tales, estes personagens fizeram muito sucesso, ajudando a abrir caminho não só para este gênero em específico, mas para toda "ficção" em si. Estas revistas eram comuns nos anos 10/20, chamadas de Pulp Fuctions elas foram origem ou popularizaram inúmeras figuras como Zorro, Tarzan e Flash Gordon. Bem dizer, este formato de contos, publicações em revistas e universos em comum é um predecessor do formato atual das HQ's, que hoje fazem tanto sucesso. Talvez sem Howard, Lovecraft, Hamilton, e vários outros, nem tivéssemos o formato presente da cultura pop, então devemos muito a estes mestres!


Neste livro temos oportunidade de explorar o universo do personagem. Pouco conhecido, totalmente eclipsado pela imensa popularidade de Conan, O Bárbaro, Kane acaba sendo tópico de conversa apenas para fãs "true" do gênero. Em 2009, como nos anos 80 com o filme de John Milius, a indústria cinematográfica tentou lucrar com um dos personagens de Howard e a adaptação para a telona finalmente saiu, após anos na geladeira, passando de produtora em produtora. Mas a versão dos cinemas acabou não ajudando em nada a dos livros. Precisando seduzir um público que pouco conhecia sobre a obra, acabaram falhando nesta tarefa, levando pouca gente aos cinemas, não conseguindo pagar nem metade de seus gastos. Não tanto por falta de qualidade, o filme é melhor que várias produções lucrativas por aí, apesar de ser uma história original e ter várias discrepâncias do material original, acaba sendo bom. Mas por várias falhas na sua venda, pouca gente teve a chance de ser introduzido a sangrenta história do puritano inglês.

Eu acabei sendo uma das pessoas atingidas pela produção. Descobri Solomon pelo filme, assistido em uma época de desemprego e tédio imenso, e gostei muito do personagem. Assim quando recebi este livro para resenhar já tinha ideia que sairia muito satisfeito. Howard realmente manda bem quando assunto é fantasia.

O autor não chegou de escrever um livro longo e definitivo sobre o personagem. Inclusive a grande parte dos autores envolvidos nessas revistas pulp morreu sem ter publicado algo muito extenso. Sendo assim a história de Kane é bem episódica, remetendo as HQ's modernas. Pode-se ler um curto conto hoje, deixar o livro de lado e voltar de onde se parou sem problemas, algumas histórias se conectando, outras não. Como mencionei anteriormente, a ideia de "universo expandido" é muito divertida e fideliza os fãs. Algumas referências aos universos de Conan e Kull aparecem em Kane e inclusive algumas outras ao universo Lovecraftiano. HP e Howard eram grandes amigos e costumavam se emprestar personagens, conceitos, civilizações, entre outros elementos.


Inclusive, as primeiras páginas do livro são uma introdução perfeita (melhor até que o filme) para este universo. Caso não saiba nada sobre o personagem e esteja em dúvida se vai ler, dê uma olhada nas primeiras páginas. Sei que é feio isso, mas quem nunca fez né? A ótima introdução é feita pelo escritor Alexandre Callari e a resume muito bem, dando uma boa ideia do que virá em seguida.

Mas afinal, quem é Solomon Kane? Acredito que uma boa definição seria "um Justiceiro Puritano do século 16", não um justiceiro qualquer, um vigilante aleatório, mas uma espécie de Frank Castle mesmo. Tomado por uma necessidade imensa de proteger e vingar as pessoas prejudicadas, Solomon transformou a batalha contra todo tipo de mal em sua motivação para existir, algo pessoal. É uma missão impossível e pesada, obviamente não existiu em nenhum momento a possibilidade de Kane erradicar o mal para sempre, e o personagem sabe disso, porém coloca o peso do mundo em suas costas e busca pelo menos diminuir a podridão existente neste mundo e em outros. Frank Castle pode ser um psicopata completo, mas teve ótimos motivos para entrar nessa, porém no caso de Solomon em momento algum é passada uma justificativa definitiva para seus atos, o que aumenta mais ainda a insanidade de sua busca eterna. Insanidade esta que é sentida em vários momentos dos contos, onde o que separa o real e a imaginação de nosso protagonista se torna confuso, causando dúvidas cruéis, impossíveis de serem validadas. Kane acaba sendo sustentado pela sua própria fé, na sua causa e no sobrenatural.

Quem gosta de literatura desta época (e de várias outras para dizer a verdade) sabe a dificuldade que alguns autores tinham para lidar com assuntos que somente hoje em dia vem sendo abordados com uma certa maturidade. Várias destas obras acabam ficando desgastadas por certos desvios desnecessários, mas que eram comuns para suas épocas. Em alguns momentos tratam a mulher de maneira duvidosa, em outros acabam sendo ofensivas com certas raças/religiões ou promovendo involuntariamente certos comportamentos escusos. Howard é um dos autores que são afetados por estas situações, assim como Mark Twain, HP Lovecraft, Bukowski, uma lista enorme para falar a verdade. E este assunto é delicadíssimo, mereceria até uma discussão aberta com vocês leitores. Eu particularmente não tenho uma opinião formada sobre isto, ou você ignora a genialidade de obras primas da literatura, por motivos que entendo perfeitamente (e absolutamente corretos), ou faz vista grossa e acaba gostando muito de algo que em alguns momentos vacila demais, acabando em um sentimento até de culpa.


Nessa obra, Howard acabando sendo vítima de sua época, porém ao contrário de alguns mestres da literatura que morreram sem se arrepender de seus pecados, o autor acaba mudando de opinião durante seus textos, mostrando uma evolução não só do personagem como na pessoa do criador em si. Com o passar dos contos, Kane aprende a amar a África e ajudar seus habitantes ao invés de desprezá-los como um povo bárbaro (o que acaba sendo uma ironia, já que seu personagem mais famoso é um).

Mesmo com este defeito, Solomon Kane é uma leitura recomendadíssima para qualquer um fã de fantasia. Me sinto um herege por ter demorado tanto a ler seus contos. Vale muito o tempo investido! O personagem é complexo e profundo, não é somente uma história de ação sem muito sentido. Solomon trás você para dentro de uma mente agoniada e dolorida, que sofreu por anos e sofrerá por toda eternidade, em sua busca eterna pela justiça, por mais que seja apenas a sua justiça. É interessante como Kane é humano, cheio de dúvidas e traumas, mas ao mesmo tempo único, como se a vingança fosse encarnada em uma pessoa que movesse com fúria e frieza ímpares. 

Para completar, após o final dos contos entramos na vida pessoal do autor, aprendendo porque eles foram escritos deste jeito e percebemos que o personagem reflete diretamente as angústias da triste vida do autor. Eis uma obra completa que faz justiça ao personagem e sua longa história, que sempre é melhor aproveitada quando sabemos exatamente onde estamos andando.

Solomon Kane: A Saga Completa foi cedido pela editora Generale para o Nerdbucks por conta da parceria. Acompanhe as novidades da Editora:

Ficha Técnica
Nome: Solomon Kane - A Saga Completa
Autor: Robert E. Howard
Editora: Generale
Páginas: 256
Onde Comprar: Submarino, Saraiva, Amazon.
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