O que achamos do primeiro episódio de Preacher


Se alguém iniciante no mundo das HQ's vier a me perguntar um dia "Hey Nilton, quais quadrinhos com temática adulta tu me recomenda?". Sem dúvida uma das três primeiras indicações seria Preacher. Esta obra da Vertigo, selo focado no público adulto e fora da continuidade canon da DC Comics, é uma presença certa nas prateleiras de quem gosta da arte. A revista não só é uma das séries mais vendidas e premiadas do selo, como é o maior expoente de toda razão questionadora da Vertigo em si.

A série aborda de maneira gráfica todo mito "judaico-cristão", debatendo a própria existência das religiões. Quando fora de sua temática principal, Preacher toca em assuntos como abusos morais e físicos, psicopatia, sadismo e sexualidade. Foi uma série ousada do início ao fim, até no número de edições com seus 66+6 números. Nesta pequena introdução já dá para entender o tamanho do rojão que Seth Rogen e Evan Goldberg estão segurando não?

A meta dos diretores é alterar o formato e adaptar para televisão uma das, se não a, melhor série adulta de HQ's da história. E de quebra colocar a mão em diversos vespeiros em uma época do mundo onde extremismos brotam cada dia que passa. Precisam agradar a enorme fanbase, seduzir o público "civil" e tentar não se queimar tanto com os moralistas de plantão, o que é muito difícil quando um dos personagens principais chama-se Cara de Cu. Com essa missão praticamente impossível em mãos. Somado a esta expectativa vem o medo, já que a dupla encarregada passou somente por comédias até chegar a esta obra, mais especificamente comédias "stoner" para um público bem específico. Tinha tudo para dar errado, pode até dar em poucos episódios, mas por enquanto o castelo de cartas começa firme.


Como só tivemos acesso ao piloto é impossível cravar sem dúvidas que a série televisiva de Preacher é um sucesso incrível e Rogen/Goldberg estão de parabéns, mas seu início foi tão bem quanto possível. No piloto somos introduzidos aos três heróis principais, o padre sem fé Jesse Custer (Dominic Cooper), o vampiro irlandês Cassidy (Joseph Gilgun) e a explosiva Tulip (Ruth Negga). Também somos apresentados a pequena Annville, Texas, com muito mais paciência que nas HQ's inclusive. Toda questão da entidade Gênesis é deixada em aberto por enquanto, testemunhamos uma pequena parcela dos poderes incríveis que ela tem e que seus "possuídos" acabam recebendo por tabela.

O primeiro episódio focou claramente em semear terreno para o resto do seriado, sem entregar muito a história geral e parecendo mais uma sequência de cenas coladas com um pano de fundo texano. Introduziu a maior parte dos personagens principais porém o todo fez pouco ou nenhum sentido para quem não leu a obra. Ganhou pontos pela coragem ao assumir a veia "história em quadrinhos", com cenas totalmente absurdas beirando o ridículo que acabam ficando divertidas, entretanto ficariam mais legais ainda se estivessem em uma adaptação de algo absurdo e cômico e não Preacher. Fico em dúvida se o tom da série não deveria ser um pouco mais sério, agoniante e depressivo. Os diretores flertaram com influencias de Tarantino e Rodriguez, sendo uma solução para "justificar" alguns elementos absurdos da HQ, buscar ativar "suspensão de descrença" do público desde já, para que ele não leve tão a sério toda história. É uma aposta bem arriscada mas que pode render bons frutos, pelo menos esteticamente.


Sobre os personagens, o vampiro Cassidy foi "atualizado" e sua caracterização ficou muito boa, Joseph Gilgun puxou seu melhor sotaque irlandês e acabou soando de maneira perfeita, quase indecifrável. O personagem é levemente mais canastrão que nas HQs, mas gostei muito. A Tulip surpreendeu positivamente, inclusive acabei achando mais interessante a versão proposta pela linda Ruth Negga que a dos quadrinhos. Muito mais explosiva e indo direto ao ponto, Tulip O`Hare vai passar longe de ser uma donzela em perigo. Jesse Custer também difere muito da versão quadrinesca, na telinha ele parece ser mais otimista e segue aqueles arquétipos básicos do herói padrão. O Custer das HQ's tem um heroísmo inato, porém junto com a necessidade de fazer o bem ele possui uma aura pesada, o responsabilidade de ter a onisciência completa do existir, saber os segredos do universo e ter sua fé cada vez mais abalada, tanto em Deus quanto na humanidade. Vamos ver qual será a abordagem dos futuros episódios, se veremos uma evolução de Custer ou se irão pelo caminho mais fácil.

Um personagem a ser destacado é a cidade de Annville, nesta versão um pouco mais "light". Nas HQ's a cidade tem seus segredos, dos quais Custer tem ciência por ser confessor. Ela se mostra tão podre como qualquer outra, com vários "pecadores" entre seus habitantes. Na telinha vemos uma versão simpática, Annville até agora é uma cidade de interior com seus "vilões" estereotipados e pessoas de bem. Até o xerife Root se transformou em alguém muito mais tragável que na versão original, assim como seu filho Cara de Cu, muito mais fácil de se olhar. Resta saber se Jesse entrará em contato com a podridão de seus fiéis ou veremos uma cidadezinha simpática onde pessoas vão para criar seus filhos com tranquilidade.


Outra mudança está nos vilões. A primeiro momento não temos nem sinal do velho e bruto Saint of Killers, porém somos apresentados a duas figuras inumanas que estão em busca de Genesis. Aparentemente essa dupla será uma maneira inteligente de mostrar o poder de nosso trio sem precisar queimar um grande vilão. Vemos também a empresa de processamento de carnes Quincannon, lar de um dos personagens mais interessantes da saga, o doente Odin, a ser interpretado por ninguém menos que o eterno Rorschach, Jackie Earle Haley. Sem dúvida estamos ansiosos para este núcleo. Gostei dessas mudanças, acaba dando mais tempo para uma introdução aprofundada dos personagens e suas motivações, sedimentando com mais calma o fator absurdo que seria mostrar logo no primeiro episódios anjos e um cowboy imortal e imparável. Nessa dou alguns pontos aos diretores.

Preacher é uma aposta arriscada. Passa longe, bem longe, do caminho que muitos fãs gostam, aquela adaptação frame per frame da obra. Eu particularmente acho interessantíssimo quando são dadas novas tonalidades a obra principal, se novos caminhos forem seguidos de maneira que não seja gratuita, ótimo. Se os subterfúgios da série buscarem adicionar que continue a incomodar fãs puristas. Porém é uma faca de dois gumes, a HQ é um clássico monstro e se em algum momento a série for menos que muito boa teremos reclamações acintosas. Boa sorte para Rogen e Goldberg nesta empreitada, eles vão precisar.

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