The Witch | A Bruxa e a Revolução Satânica


Devo dizer que meu interesse no filme The Witch começou de fato quando eu li uma carta escrita por Jex Blackmore, representante e Diretora do Templo Satânico de Detroit (mulheres ocupam cargos em Templos Satânicos, diferentemente da igreja católica).

Todo mundo está se referindo a essa obra como um “filme de horror”, mas eu diria que esta concepção está equivocada, ou pelo menos incompleta. Nas palavras de Jex Blackmore:

"The Witch is more than a film; it is a transformative Satanic experience."

"A Bruxa é mais do que um filme; é uma experiência Satânica transformadora."

Não estamos tratando sobre um “filme de horror”, e sim de um filme sobre Satanismo. Nos últimos anos, eu tive contato com algumas pessoas que estudam o assunto a sério e acabei me interessando. Eu não sou nenhuma especialista, mas vou tentar explicar um pouco sobre o assunto. O Satanismo é um recorte de muitas crenças diferentes, tanto ideológicas quanto filosóficas. Ao invés do que pensamos, não envolve a adoração de Satanás como uma figura sobrenatural, mas envolve o entendimento dessa figura como um símbolo de rebeldia e iluminação. Satanismo é sobre autodescoberta, sobre aceitar seus desejos. Envolve crenças que se relacionam com rebeldia, revolução, libertação. Do que? Das normas de uma sociedade presa às amarras e restrições de uma suposta “civilização”, que mal pode se sustentar. Entre as leis que o Satanismo cultiva, podemos citar a relevância da força de vontade e do corpo físico, a justiça, a compaixão e, é claro, a liberdade.

Existem algumas obras que tratam muito bem da questão de libertação, como o poema épico que foi a inspiração para os revolucionários ingleses do século XVIII, Paraíso Perdido de John Milton. Muitos críticos defendem que o herói dessa obra é Satã, sendo que Paraíso Perdido conta como ele foi expulso dos céus e como ele luta contra Deus, mesmo sabendo que não tem chance de vitória. Mas ele luta e acaba por ofuscar, com a força de seu espírito poético, a maioria dos outros personagens. A partir daí advém seu papel de herói. Ele inflama uma revolução no coração de seus seguidores para se erguer contra um Deus, lido a partir da perspectiva revolucionária, como dogmático e tirano. Ele luta pela sua liberdade e pela liberdade de seus companheiros.


Logo no início de The Witch somos apresentados a uma família que está sendo expulsa de sua cidade, de seu lar, por divergências religiosas. Somos apresentados a uma família exposta a uma figura paterna fraca e presa a fortes dogmas. Regras, regras e regras. Todos nascem pecadores, só Deus sabe se irão para o céu ou para o inferno. Até mesmo as crianças vivem em um ambiente mergulhado em medo, ninguém está seguro. O garoto Caleb (Harvey Scrimshaw) levanta essa questão ao pai, quando seu irmão, Sam, some. O que um bebê teria feito para desagradar Deus e ganhar uma passagem para o sofrimento eterno?

Enquanto a família é expulsa, em uma das primeiras cenas, vemos Thomasin (Anya Taylor-Joy). O bebê some, enquanto está sob os cuidados de Thomasin. Todos assumem que um lobo o levou, mas não precisamos esperar muito para que dedos acusadores levantem-se na direção da menina. Ela está começando a entrar na puberdade, saindo da fase em que é uma menina para ser uma mulher. Essa fase vem acompanhada de problemas que são inseridos de forma sutil através de certas escolhas de fotografia específicas, por exemplo.

Depois de tudo, acredito que podemos chamar o filme de feminista, afinal, o que é o feminismo se não a libertação da mulher? Ela se liberta, não apenas das amarras da sociedade, mas das amarras impostas por ela mesma. Segundo Simone de Beauvoir, a mulher deve assumir responsabilidade pela própria vida para se libertar, ou seja, saber tomar as próprias decisões, se emancipar, aprender que tem deveres e direitos. Thomasin precisa descobrir tudo isso, precisa se defender, se reerguer para poder se libertar.

The Witch foi uma obra que lutou para ver a luz do dia. É o primeiro filme dirigido por Robert Eggers. Muitos diálogos foram retirados de fontes históricas escritas. A resposta da crítica até agora foi muito boa e ele já ganhou um prêmio na categoria Dramática no 2015 Sundance Film Festival.


It is time to awaken. As we stand at the crossroads of history, let us confront the blind and self-righteous who persecute thought and reason. Let us rise up in celebration of our Satanic nature and embrace the embodiment of the witch.” - Jex Blackmore

Enquanto estamos em uma encruzilhada histórica, permita-nos confrontar o cego e o hipócrita, que arreliam o pensamento e a razão. Permita-nos que nos ergamos em celebração a nossa natureza satânica e abracemos a personificação da bruxa.(tradução livre). Texto completo em inglês: http://satanic-revolution.com/

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