Resenha | A Menina Submersa (Caitlín R. Kiernan)


“A Menina Submersa – Memórias” é um livro escrito por Caitlín R. Kiernan, publicado pela DarkSide Books, classificado como “Dark Fantasy”. O romance é uma espécie de conto de fadas sombrio, onde habitam sereias e licantropos coloridos por pinceladas de loucura Lovecraftiana. Podemos classificar o livro como horror? Bem, segundo a autora, a resposta é um enfático “não”.

"It's not that there are not strong elements of horror present in a lot of my writing. It's that horror never predominates those works. You may as well call it psychological fiction or awe fiction. I don't think of horror as a genre. I think of it – to paraphrase Doug Winter – as an emotion, and no one emotion will ever characterize my fiction." - Caitlín R. Kiernan

“Não é que não existam fortes elementos de horror presentes em grande parte de minha produção. É que o horror nunca é predominante nesses trabalhos. Você poderia muito bem chamar de ficção psicológica ou ficção de mistério. Eu não acho que horror seja um gênero. Eu acho que – para parafrasear Doug Winter – é uma emoção, e nenhuma emoção nunca caracterizará minha ficção.”
(Tradução livre)

Eu diria que “A Menina Submersa” pode ser lido a partir de duas perspectivas, sendo que uma delas foge do cenário fantástico. India Morgan Phelps ou Imp, a protagonista, é esquizofrênica. Ela está escrevendo suas memórias em uma máquina de escrever e tentando entender o que está acontecendo em sua vida no momento. Colocar os pensamentos em ordem não é fácil para ela e isso fica claro conforme encontramos alguns trechos riscados ou controvérsias na história. Partindo daí, poderíamos interpretar tudo o que acontece como fantasia ou simplesmente como um delírio da protagonista. Independentemente do caminho que escolhemos trilhar, a obra é de tirar o fôlego. Imp tem muitos diálogos com Abalyn, sua namorada, e nessas conversas, podemos perceber alterações nas informações apresentadas pelas personagens. Essas alterações poderiam ser interpretadas como mentiras ou simplesmente como mudanças de narrativa que Imp faz no decorrer de sua escrita. Ela deixa claro, logo no início do romance, que não é uma narradora muito confiável.

Essa ambiguidade é reforçada na obra pela presença da sereia, que é uma figura pela qual Imp nutre certo carinho, quase uma obsessão, dependendo do momento. A sereia fortalece a ideia de imaginação que abraça a protagonista, que é uma pintora e escritora. Na verdade, no meio do livro, nos deparamos com contos criados por ela. Acredito que a relação dela com a sereia possa apontar para uma relação da personagem com a loucura. Além disso, a sereia traz a ideia de perigo, de se perder na profundidade do mar, de se perder na beleza e na poesia. Para as sereias, destruir pela poesia é uma forma de criar arte. 

A água também é um elemento feminino. Na obra de Kiernan não encontraremos homens, exceto pelos seus medicamentos, que ela trata como se fossem “senhores”. A loucura da família de India é hereditária perpassando as gerações de mulheres. De sua vó para sua mãe, de sua mãe para ela. Além dessas personagens, também encontramos outras aparições femininas, como sua médica psiquiatra ou sua nova obsessão, Eva Canning. Eva persegue Imp em seus devaneios mais profundos. De certa maneira, ela traz à tona a loucura de Imp em sua forma mais visceral.

A Menina Submersa é uma obra surreal sobre uma menina delicada, porém, ferida. Não é uma história de ação nem de amor, embora elementos de paixão cerquem a escrita de Imp o tempo todo. Em alguns momentos somos enlevados por uma escrita frenética e desordenada, mergulhamos na esquizofrenia e, assim como a protagonista, precisamos achar nosso próprio rumo entre as palavras atônitas que escalam as páginas como assombrações.


“Chorei quando Eva me contou isso e ela secou minhas lágrimas com mãos trêmulas, incapaz de decidir se eram melhor serem patas ou mãos. Toda ela era uma esplêndida metamorfose, como as larvas que falaram enquanto eu dormia. Primeiro ela era uma coisa e, depois, outra, bem diante dos meus olhos. Ela era uma crisálida caleidoscópio de esqueletos cambiantes e músculo e medula, bile e as quatro câmaras ricamente indicadas de um coração de mamífero. O coração, o tetragramaton que bombeia a aqua vitae para a vida da carne está no sangue, sangue é vida. Ela nunca foi, por um instante, apenas uma única fera, pois não vou aceitar o engodo de que sempre houvera apenas uma delas, de que eu devo escolher entre julho e novembro.” - A Menina Submersa - Caitlín R. Kiernan

Ficha Técnica:
Nome: A Menina Submersa - Memórias
Autora: Caitlin R. Kiernan
Editora: Darkside Books
Páginas: 320
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