Demolidor - Review da Segunda Temporada


Voltamos finalmente a explorar a história do primeiro herói da Marvel Cinematic Universe a ter PG-18, uma série própria e ser feito com franqueza. A primeira temporada foi uma introdução incrível à Matt Murdock, ao Demolidor, seu principal vilão e todos os membros de sua família, e correu praticamente sem erros. Extremamente completa, com profundidade e cenas de ação incríveis, Demolidor foi um anúncio para todas as produtoras que o jogo tinha subido de nível e o público seria mais exigente a partir de agora. Esse anúncio valia para a própria Marvel, as próximas séries pela Netflix teriam de ser tão boas quanto. Jessica Jones abordou assuntos nunca abordados antes por obras do gênero e cumpriu tudo que se esperava, aumentando ainda mais a expectativa pela segunda temporada de Demolidor.

Chegou dia 18 de Março e a Netflix me descarregou de uma só vez os 13 episódios, são praticamente 13 horas de maratona, é tempo pra caramba e eu estava com muita vontade de sair pra fazer algo. A semana foi estressante, trampo me tirando tempo, sabia que não ia dar para fazer os dois, era a nerdice ou o trago. Foi uma decisão difícil entre sair, encher a cara, e fazer algo público ou ficar em casa assistindo as aventuras do "homem sem medo". Resolvi esta questão da maneira mais fácil, pensei "vou assistir ao primeiro episódio e daí vejo o que faço". Menos de 50 minutos depois, já tinha resolvido, minha vida social teria de esperar. Aliás, para falar a verdade, mal precisou chegar na vinhetinha bacana, já havia decidido antes.


Logo no primeiro episódio somos introduzidos à Frank Castle, o Justiceiro. Um dos personagens mais controversos dos quadrinhos, usando uma forma bem simples para resolver seus problemas, matar todos que estiverem em seu caminho. Para um personagem que apesar de questionado pelos seus métodos é respeitado por todos, Castle teve uma história bem difícil nas adaptações. Nem precisamos lembrar dos três filmes meia bomba que precederam a série, seja qual for sua opinião sobre eles, temos uma unanimidade, não vimos realmente o Justiceiro em cena, todos eles eram arremedos, farsas, action figures de uma marca chinesa.

Castle chega de "sopetão" fazendo o que faz de melhor, matar criminosos a rodo. Os seus caminhos acabam se cruzando tanto com o Demolidor quanto com Murdock, gerando ótimas discussões entre filosofias dos heróis e até da própria existência dos vigilantes. Essas discussões lembram um pouco algumas colocadas em Batman Dark Knight, mas seguindo por caminhos bem diferentes e muito mais profundos. Qual seriam os limites da tal "justiça pelas próprias mãos"? O que o Demolidor faz não deixa de ser ilegal, é uma linha tênue que difere os dois de maneira efetiva mas psicologicamente imensa. As motivações e psique do Justiceiro são analisadas perfeitamente, vemos todos os lados da história de maneira imparcial e acredito que sairão dois tipos de fãs dessa história: os que veem sentido na cruzada de Castle e os que terão certeza absoluta de sua psicopatia. Tudo isso é fruto da oportunidade perfeita da Marvel na Netflix, são 13 horas para desenvolver personagens e fazer com que realmente possamos sentir a incerteza, e humanizar seus personagens trazendo eles para perto do espectador, e eles acertaram em cheio nisso.


A própria história da Marvel é baseada nesse interesse de explorar o lado mais humano de seus heróis. Enquanto na DC temos deuses andando na terra, arquétipos anciões mostrando sua cara em outras roupagens, na Marvel vemos o homem trivial tendo de lidar com suas questões pessoais, morais e ainda ser um grande herói, e é nisso que a série acerta. Do outro lado da fantasia trevosa temos Matt Murdock, advogado em plena ascensão no mercado jurídico de NY, com um monte de clientes e uma firma promissora para tocar junto de Foggy Nelson e Karen Page, seus fiéis escudeiros. Vemos que Matt e Foggy são ótimos profissionais e vestiram a camisa das "causas menores", apesar da pouca renda que isso trás. Esse lado jurídico da série sem dúvida dará orgasmos aos interessados no Direito, e é nele que vemos o crescimento gigante do ator Elden Henson como o sócio do herói.

Algumas das cenas mais complexas são protagonizadas nesse núcleo, Foggy acaba se mostrando um verdadeiro herói, muitas vezes mais importante até que o próprio vigilante e melhor amigo. É nessa ausência de poderes, tendo de lidar com os verdadeiros problemas da cidade, limitado pelo poder judiciário, que vemos a dificuldade de alguém querendo fazer o bem nessa sociedade falida usando de meios legais. Essas cenas jurídicas fazem brotar outras questões como: "Afinal, Matt Murdock não poderia ser muito mais importante para o longo prazo do que o próprio Demolidor?". Questões que brotam na cabeça do próprio personagem e o obrigam a tomar decisões sem volta. 


Karen Page retorna, com a linda Deborah Ann Woll, tendo que mudar completamente sua vida. Apesar de um pouco chatinha e enrolada, ela é importantíssima para a trama e se mostrou a personagem feminina mais corajosa e com atitude desta temporada. Sua história se assemelha à de Foggy e remete ao falecido Ben Urich, parece que irão seguir uma linha diferente da personagem original, porém mais interessante. O passado de Page é misterioso e ela usa de sua cara inocente para criar perguntas e conseguir respostas, porém ao meu ver de "menina do interior" como ela diz, não tem nada. Fico na expectativa da mistura de algumas facetas clássicas com essa nova Karen.

Estes são alguns dos "atos" que dividem claramente esta temporada. De maneira genial, para evitar a fadiga e a enrolação (que infelizmente também existe nessa temporada, nada é perfeito) os roteiristas quebraram as quase 13 horas de show em pequenos arcos, todos importantíssimos para o resultado final. Não ficamos presos a uma linha de pensamento, são vários fatos acontecendo ao mesmo tempo, enquanto uns vão se fechando outros vão se abrindo até a conclusão. Um dos arcos é o de Elektra Natchios, eterno interesse amoroso de nosso herói.


Elektra é introduzida justamente quando o arco de Castle vai diminuindo em intensidade. A série apresenta a anti-heroína como uma patricinha viciada em adrenalina que Matt conhece em uma festa de faculdade, onde entra de penetra. Sendo explicada de maneira gradativa, ela trás outras perguntas ao herói, ao mesmo tempo em que o próprio precisa reforçar suas crenças várias vezes durante o conturbado relacionamento de amor e ódio. É através dela que é explicada de vez "O Tentáculo" (The Hand), organização ninja milenar que busca liberar um mal misterioso sobre Hell's Kitchen.

Ao meu ver ela e o "núcleo da Mão" foram os mais fracos. Acredito que não por culpa dele em si, mas pelos outros núcleos serem muito mais interessantes, a personagem e todos os envolvidos nele acabam ficando um pouco apagados, são argumentos muito profundos e personagens melhor construídos nas outras situações. O antagonista principal vem da outra temporada, é o ninja Nobu, porém com zero simpatia. Pela proximidade do seriado próprio do Punho de Ferro e do filme do Dr. Estranho, explorar com qualidade o misticismo neste núcleo seria vital até para semear interesse nesta vertente da Casa das Ideias. A caracterização de Elektra também deixou a desejar, mas saindo da premissa que o uniforme final do personagem principal decepcionou os fãs quando foi apresentado e esta versão 2.0 está muito melhor, esperamos um retorno da femme fatale grega com suas vestes esvoaçantes e bandana estilo Axl Rose na cabeça.


Temos também um mini arco dentro de uma prisão que não poderei comentar pois distribuiria spoilers. Mas saibam que é um dos, se não o ponto alto da temporada. Surpresas esperam vocês fãs de HQ's!

Existem poucos defeitos nesta temporada, um deles é a ausência de um grande vilão. Por ser focado na introdução de dois personagens e ambos serem anti-heróis, eles acabam tomando o lugar que Wilson Fisk teve na primeira temporada. Claro que é pedir demais, praticamente impossível, aparecer um vilão tão incrível quanto Fisk, mas seria bacana termos pelo menos o teaser de algum outro antagonista. Outro problema são as histórias arrastadas, como já está virando praxe para a Marvel/Netflix. A temporada poderia ter 10, 11 episódios tranquilo, porém se parar para pensar, Jessica Jones poderia ter 7 episódios e ninguém reclamaria, então dá pra fazer vista grossa.

No fim, o saldo desta temporada é muito positivo. Com coreografias insanas, as cenas de luta são de encher os olhos. Inclusive é bacana como cada personagem principal tem seu estilo de luta peculiar, Justiceiro luta bem diferente do que o Demolidor, e Elektra também, mesmo tendo treinamento similar ao do herói, graças à isso não temos nenhuma "cena de ação genérica". Apesar da ação ser incrível, o roteiro foi o grande destaque. Os dilemas morais, conversas tensas entre personagens, situações psicologicamente desgastantes, a Marvel realmente conseguiu fazer com que eu me sentisse novamente lendo algo saído das páginas da Marvel Max. Sem a preocupação em vender produtos e ingressos, Demolidor atinge um patamar muito alto, nunca na história desse gênero tivemos uma obra tão completa. É algo que realmente faz a diferença e atrai todos os tipos de público, tamanha a qualidade. Mesmo quem tem preconceito com heróis vai gostar muito dessa temática.

A segunda temporada de Demolidor mantém a qualidade da primeira, escorrega um pouco, mas a qualidade é tão acima dos seus "rivais" que tu esquece dos problemas rapidinho. Além de deixar várias pontas soltas para a próxima temporada e o melhor, decisões sem volta. Os caminhos que Matt Murdock escolhe são fixos, não temos a chatice das HQ's mainstream rebootando sempre que algo complicado acontece, já vimos a ascensão, a construção e provavelmente logo veremos a queda do nosso demônio da guarda, em um fechamento épico para esse seriado fantástico.

Nenhum comentário:

Postar um comentário