Crítica de "Vinyl", a nova série da HBO


Vinyl é uma série que não precisa de muitas introduções para impressionar o público. É um projeto da HBO que conta com o envolvimento de figuras como Martin Scorcese e Mick Jagger, mostrando a história do mundo da música dos gloriosos anos 70. "Só" isso! E acreditem, ela não decepciona.

A criação do projeto vem de quatro pessoas, Mick Jagger, Terence Winter, Rich Cohen e Martin Scorcese. Jagger, amigo de longa data de Scorcese, deve estar trocando idéias sobre uma série ou filme baseados no mundo da música com seu parceiro a décadas. Imagino longas conversas regadas a bom whisky, com Mick contando as mil aventuras dele na sua carreira como vocalista dos Stones e Martin impressionado com tudo isso, já com papel e caneta na mão, traçando idéias.  Tais conversas deram luz ao documentário/show Shine a Light de 2008, primeira parceria entre a banda e o diretor. Logo, seria questão de tempo que algo parecido com Vinyl aparecesse. 


Inclusive, aos que imaginam que Jagger está ali mais para dar "nome" a série, estão enganados. Não só Jagger ajudou a escrever, como é produtor executivo e conselheiro. É da boca dele que sairão vários insights do tão secreto submundo da música. Então, basicamente veremos uma versão muito estendida e até melhorada de Quase Famosos, que tinha Cameron Crowe e sua bagagem gigantesca como jornalista pela Rolling Stone em seu curriculum. Só que dessa vez é Mick fucking Jagger contando as lendas.

Adicione a brincadeira Terrence Winter, nome de peso considerável, e vemos que este show tem pouquíssima chance de falhar. Ele assina nada mais nada menos que Boardwalk Empire, The Sopranos e foi nomeado ao Oscar de melhor roteiro por O Lobo de Wall Street em 2013, em parceria com Scorcese, porém a parceria não começou aí. Na própria Boardwalk, Scorcese teve a chance de dirigir o primeiro e épico episódio da série, escrito por Terence Winter. Este episódio serviu não só como chamariz para o público vidrado pelo diretor, mas também para traçar o caminho inicial do seriado. Assim como acontece em Vinyl.

Sobre os outros criadores do projeto, Rich Cohen é um premiado jornalista, escritor e editor da revista Rolling Stone, com muito conhecimento de causa na questão musical, roteiros e peças. E Martin Scorcese, bem, é Martin Scorcese.


Os atores são relativamente conhecidos. Bobby Cannavale, de Boardwalk Empire, é o protagonista Richie Finestra, dono da American Century, uma produtora musical que vem decaindo há um bom tempo. Somos apresentados ao eternamente esquisito Ray Romano, de Everbody Loves Raymond, como um dos promotores de Richie. James Jagger, filho de Mick Jagger, aparece como o vocalista da banda punk Nasty Bits, baseado em Richard Hell, dos Televisions. Temos também a fofa Juno Temple, de Little Birds, fazendo um papel bem diferente do que estamos acostumados, e a linda Olivia Wilde, encarnando a esposa de Richie, Devon.

A história é simples, porém maciça o suficiente para levar a temporada inteira. Esta gravadora a beira da falência busca ser vendida para o grupo alemão Polygram, porém isso acaba acarretando "altas aventuras" envolvendo uma das maiores bandas de todos os tempos. Temos pequenos flashbacks do passado, mostrando como Richie entrou para o mundo da música e fundou a empresa. Entre essas histórias que tendem ser por si só firmes como fios condutores. Outra aparece, porém esta não é spoiler free, então assistam!

As atuações são muito boas. Sem contar com nomes enormes, parece que todos os atores estavam cientes da oportunidade que tiveram. A vitrine deste show vai ser o turning point de muita carreira ali e todos foram esforçados, gostei de todas as atuações. Até do pequeno Jagger, que está lá por motivos bem claros.


Meu único medo é que a série não consiga manter o nível. Quem já está no mundo dos seriados sabe bem como é raro que os diretores e roteiristas se repitam em cada episódio. E infelizmente as agendas lotadas das estrelas deste show fazem com que apenas o primeiro episódio tenha a mão de Martin na direção. A história como um todo foi escrita pelos quatro principais participantes citados acima, porém, obviamente, cada episódio terá seu roteiro principal escrito por outras pessoas. A produção executiva continuará passando na caixa de e-mails desses caras, mas acredito que somente Winter vá manter-se como um colaborador frequente. Será um peso e tanto para os diretores/roteiristas dos próximos episódios carregarem, porém se Boardwalk conseguiu, por que não Vinyl?

A questão da duração também me deixou receoso. É claro que foram largadas várias pontas soltas a serem resolvidas, mas o primeiro episódio funciona tão bem sozinho, fechado, que me pareceu quase um ótimo filme. Corta um pouco ali, acelera um pouco aqui, adiciona mais uns 40 minutos e teríamos um clássico do cinema. Este primeiro episódio acaba funcionando bem demais como uma história fechada. Outro problema para a série, que pode ser bom e motivar o público a descobrir maiores detalhes deste novo universo, ou péssimo, deixando o público "satisfeito" demais para lembrar de outros episódios.


Vinyl vale as duas horas. Tem uma trilha sonora absurdamente genial, momentos icônicos e easter eggs a dar com o pé . Aliás, não vejo outra maneira de chamar estas aparições e menções do mundo musical. São várias citações e cenas envolvendo ídolos monstros e ilustres desconhecidos, o que para fãs de música é sensacional, nos sentimos como uma mosquinha vivendo um pouco daquilo que esses deuses viveram.

Logo, se você for fã de música, cinema e outras cositas más, por favor assista Vinyl, você não vai se arrepender. Mesmo que os próximos episódios sejam 5 horas seguidas de Terry Crews correndo atrás de javalis, seria maneiro. Aliás, acho que isso seria maneiro de qualquer jeito (HAHA).

Nenhum comentário:

Postar um comentário