3 características que faziam de você um “nerd” há cerca de 15 anos que estão se perdendo




Sim, o texto é uma relativização do que é chamado de “nerd” hoje, feito por um cara que passa mais tempo do que o recomendado na internet, por questões de trabalho. Saber quem faz o texto ajuda a entender o que ele diz, mas mais importante do que isso, nesse caso, é entender que esta minha visão sobre estes detalhes vêm de quase 30 anos vivendo neste nicho.

Antes de tudo, é fundamental dizer que ser “nerd” hoje é socialmente aceito, na verdade é quase uma moda. E eu acho isso o máximo.

Não sou um “purista hipster gourmetizador” que vem aqui dizer “na minha época era mais legal”. A minha época foi mais legal para mim porque era a MINHA época. Com certeza é muito mais divertido ser nerd hoje do que era antes, até porque existe um mercado maravilhoso crescendo ao redor desse estilo de vida. Eu me aproveito desse mercado, junto com a turma mais nova, que não se lascou como eu, sendo perturbado na escola por isso e convivendo com o estereótipo que hoje em dia virou piada do Chuck Lorre.


Acontece que, como naquela época éramos um bando de párias sociais, as atitudes de um nerd pelas pessoas ao seu redor eram muito mais inclusivas e interessantes, além, claro, das formas com as quais a gente tinha prazer de lidar com uma série de coisas e informações que eram, claramente, muito avançadas para nossa idade.

Vendo a molecada atual e  o quanto temos pessoas que se rotulam como “nerds” atualmente, cheguei a uma série de atitudes que as pessoas perderam no passar do tempo, e que lamentavelmente fazem falta hoje.

Entre elas, podemos destacar:

Vai ficar de preconceito ainda?

O sentimento de inclusão: Por sermos, na maioria das vezes, os excluídos sociais da vez, éramos extremamente inclusivos em nossas amizades, evitando preconceitos e qualquer tipo de pré julgamento sobre as pessoas ao nosso redor. Mais importante que isso, nós nunca deixávamos os amigos para trás, porque seria profundamente difícil conseguir outros. Deste ponto, o mais lamentável de tudo é que, não só aqui no Brasil, parece que existe um tipo de sentimento de vingança por uma geração que foi destratada, onde o nerd com um pouco mais de benefícios sociais se acha no direito de ridicularizar outras pessoas, especialmente mulheres e LGBT's quando eles se inserem nesses contextos. Se você acha que isso é brincadeira, duas pesquisas no Google para você: Hugo Awards e machismo no meio nerd.

A curiosidade e a transgressão: Os nerds em si sempre eram transgressores. Não era incomum encontrar os chamados nerds em movimentos políticos que pregam maior igualdade social e maior inclusão das pessoas. Especialmente quando falamos de nerds em periferias, que tinham de conviver com o abismo social mais de perto e tentavam encontrar uma resposta para ele. O nerds atuais vivem uma problemática simples: existe uma quantidade tão absurda de informações a respeito de séries, HQ's e filmes a serem absorvidos e tudo está tão próximo e tão fácil que ele simplesmente absorve sem questionar, sem entender os vários significados relacionados. Além, claro, da perda quase absoluta de interesse nos clássicos e em outros assuntos a autores que sempre fizeram nossas mentes se tornarem mais aguçadas. Me lembro, com uma pitada de indignação, que nenhum dos meus amigos mais novos sabia quem era Terry Pratchet, na época da sua morte. Precisamos retomar isso.


A interação: Naquela época, por existir uma dificuldade monumental de encontrar pessoas que gostassem das mesmas coisas que gostamos e de todas as dificuldades relacionadas a conseguir material sobre determinados assuntos, as pessoas interagiam demais quando existiam eventos e coisas relacionadas. Hoje em dia, pelo menos nos eventos nos quais eu andei participando nos últimos tempos, as coisas se resumem a tentar criar um negócio. Não existe mais tanta paixão em dividir seus gostos com as pessoas e falar sobre isso, provavelmente porque a internet se tornou um ambiente mais “saudável” para isso (tem dias que a internet pode ser chamada de qualquer coisa, mas não de saudável).

A minha esperança reside no fato de que os nerds daquela época estão tendo filhos (eu ainda vou demorar um pouco) e muitos deles estão voltando para os eventos e organizações, fazendo com que estes detalhes, que antes estavam perdidos, retornem.
Ou assim espero.

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