Estão dizendo que voltei americanizado (crítica da primeira temporada de narcos)


Há vários anos atrás Carmen Miranda voltava ao Brasil depois de uma jornada incrível nos EUA, se tornando uma das atrizes mais bem pagas da história e caindo nas graças do público americano. Ela era tão grande que, no mesmo ano em que começou sua carreira nos States foi considerada a terceira personalidade mais popular do país e foi convidada para cantar ao presidente da época Franklin "O Delanão" Roosevelt. Graças a ela entramos no "mapa cultural do mundo", claro, ela levava também estereótipos que até hoje nos perseguem mas era uma outra época, um outro tempo.

Não, este não é um texto sobre ela, por mais que merecesse. O fato é que quando voltou para Terra Brasilis ela foi julgada, hostilizada e apedrejada pela "crítica especializada" e o público burguês. Eles achavam que ela não estava mostrando uma parte bacana da nossa cultura, que ela estava manchando a reputação feminina brasileira lá fora e que, pasmem, era errado popularizar o samba, ritmo das massas e dos negros da época. O que isso tem a ver com Narcos? Tudo.

A série é ótima, indubitavelmente. Redimiu José Padilha do tosco Robocop (convenhamos, o estúdio incomodou bagarai, não deixou que ele tivesse liberdade criativa, maioria de suas idéias foram recusadas e no final, como sempre, executivos podres resultam num filme podre), colocou todos os holofotes em Wagner Moura, que passou voando a frente de vários brasileiros a anos tentando seu lugar ao sol da Califórnia. Assistam, vale a pena demais.


Mas ainda assim, mesmo essa sendo a primeira série do Netflix com temática na América do Sul e produção hollywoodiana. Mesmo com os prós de ambos artistas que falei parágrafo passado. Mesmo ainda nem tendo noção do impacto que essa série pode ter ao cinema americano, tem gente que consegue falar mal.

Claro, se você não curtiu pode falar mal a vontade, como qualquer coisa. Tem gente que curte Sharknado e odeia Star Wars, foda-se. Mas cara, não encham o saco por conta da porra do sotaque do Wagner Moura. Querem falar mal, o façam com propriedade. Achem outros motivos, sério. Falar do sotaque é pura birra.

Ninguém aqui é colombiano, ninguém aqui é linguista (me refiro ao público em  geral, desculpem aí linguistas), mesmo que ele tenha errado, pouquíssimos perceberam. Gringaiada vem pro Brasil e caga em cima contratando um monte de ator mexicano pra falar português e todo mundo dá risada e bate palma. Parece que brasileiro odeia ver brasileiro fazer sucesso.


Passaram 75 anos desde que Carmen Miranda voltou ao Brasil e compôs "Estão dizendo que fiquei americanizada" e muita gente pensa do mesmo jeito. Nós temos que ter orgulho dessa conquista, de estarmos novamente sendo respeitados em Hollywood, abordando uma história que não é brasileira, porém de maneira genial. Alguns anos atrás saiu "Trash - Do Lixo", feito por Stephen Daltry que conseguiu transmitir a nossa alma de maneira perfeita e ninguém reclamou.

Agora Padilha viaja à Colômbia, Wagner Moura se esforça pra caralho e fica meses morando na região pra tentar se acostumar a linguagem, engorda 20 quilos para o papel e disso sai um seriado muito bem recebido na gringa, inclusive pelos nossos hermanos loucassos e a crítica vem por conta da porra do sotaque. Vai entender né?

Menos mimimis  e mais apreciação a produção nacional. Quem sabe essa obra abra as portas para a quantidade imensa de talento cultural brasileiro, que inclusive é sumariamente esquecido por tanto crítico por aí. Obrigado Wagner Moura, por favor volte americanizado, vamos aprender com eles e mostrar que nossa pátria vai muito além de chuteiras e bundas!


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