Resenha | Sob a Redoma



Sinopse: (...) Em um dia como outro qualquer em Chester’s Mill, no Maine, a pequena cidade é subitamente isolada do resto do mundo por um campo de força invisível. Aviões explodem quando tentam atravessá-lo e pessoas trabalhando em cidades vizinhas são separadas de suas famílias. Ninguém consegue entender o que é esta barreira, de onde ela veio e quando — ou se — ela irá desaparecer. (...)

Sob a Redoma foi lançado no Brasil no dia primeiro de outubro de 2012 pela editora Objetiva / Suma de Letras e é uma das grandes obras de Stephen King – grande mesmo, com 960 páginas e quase 1 kg e 300 gramas. Além disso, o livro deu origem à uma série de televisão que estreou no canal estadunidense CBS em julho de 2013, com uma trama diferente da original.
   
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O livro narra a história de uma cidade que subitamente fica isolada por uma espécie de redoma invisível e resistente, impedindo quase todo contato entre os internos e o restante do mundo. No entanto, pequenos conflitos permeavam o cenário local: Um político corrupto e influente na comunidade que era investigado pela polícia local, um veterano de guerra que havia comprado briga com um grupo de garotos e, além disso, a imprensa local que acabava incomodando personagens poderosos.

Ao impor a situação de isolamento do mundo externo, os conflitos e as personagens da pequena cidade interiorana parecem se entregar aos seus piores instintos naturais, por exemplo: cenas de assassinatos, estupro, ataques e a força da ganância são imagens recorrentes no livro. Essa narrativa pode levantar uma a questão interessante sobre a natureza humana: o ódio. Afinal, somo tão propícios ao mau como parecemos ser?

Para continuar a reflexão, recorro a Leandro Karnal e Luiz Felipe Pondé para articular sobre o tema e, apesar de discordar do segundo nome com certa frequência, destaco algumas questões levantadas por eles em um módulo de palestras, ministradas no CPFL Cultura¹, que discute o ódio na natureza humana, em vários aspectos.

Na primeira palestra, Pondé comenta que o ser humano é um animal acuado e, com isso, o ódio se torna parte da essência humana. Apesar do efeito negativo da palavra, nós odiamos e ponto. Luiz Pondé destaca uma das repostas possíveis para a necessidade desse sentimento enquanto acuados no pensamento evolucionista: o ódio e amor foram necessários para a sobrevivência do ser humano no ambiente selvagem.

Seguindo sua linha de raciocínio, ele nos traz aos dias atuais e apresenta uma transformação na forma de expressar sentimento pela visão de um sociólogo francês, Alain Touraine. Segundo Touraine, o ódio hoje é representado através de conflitos institucionais. Ou seja, o é ódio mediado por entidades oficiais, como advogados que lutam por suas causas e expressam seu ódio pois, na nossa sociedade, é melhor odiar institucionalmente do que se odiar física e materialmente – a punição sobre suas medidas parece ser um fator importante no momento de decisão de como se odiar.

E quando essas instituições perdem suas forças? Ao que parece, Stephen King nos remete ao ódio “original” – físico e material. Big Jim, o político citado, relembra regularmente que os atos por eles tomados sob a redoma não tem importância por serem impossibilitados de terem punições oficiais e institucionais já que não tem interferência externa – física e constitucional. Dessa forma, ele leva seu ódio e seus planos à última instância, estendendo seus sentimentos até as últimas consequências.
Dean Norris é quem represta Big Jim na versão adaptada para TV


Na apresentação de Leandro Karnal, outro ponto importante para continuarmos nossa reflexão é abordado: o poder de união e a repressão do ódio. Para ele, nós somos acostumados a reprimir e esconder nosso ódio, em parte devido à educação conservadora cristã que prega a possibilidade de amar a todos e o ódio como um pecado capital – sabemos que a primeira afirmação é falsa e que é pouco provável que nunca tenhamos passados por situações de ódio na vida. Se somos educados e levados a reprimir essa sensação ao longo da vida, porque ainda a sentimos? Por que somos violentos?

Karnal cita Hannah Arendt, que ao estudar os militares nazistas descobriu, nos agentes, pessoas normais, com famílias e filhos. Eles não os seres terríveis que permeavam o imaginário, como pelas perguntas “como eles podem ter feito isso”?  Hannah descobriu que o mal não é extraordinário, ou raro. É banal, comum. O ódio é um sentimento que todas as pessoas possuem, e convivem com ele ocasionalmente.

Além disso, o ódio é um sentimento que pode ser manejado por terceiros e apresenta a maior facilidade de união. A expressão ‘bode expiatório’ se mostra um ótimo exemplo: toda a culpa por um problema é posta em um determinado indivíduo ou grupo que sofrerá as consequências. Se continuarmos o exemplo do nazismo, os judeus foram o bode expiatório pelo fracasso da Alemanha e sofreram as retaliações que essa posição ofereceu.

Outro ponto de destaque é a amplificação de nossos pequenos ódios devido ao esvaziamento da esperança útopica que houve no fim da Guerra Fria, em que o Capitalismo e o Comunismo falharam em mostrar que nenhum dos dois poderia criar o lugar ideal para que todos vivessem em harmonia. Os exemplos da amplificação dos nossos pequenos ódios estão por aí, como o ódio material, algo como uma inveja pelo outro ter algum objeto de valor que eu não tenha. Vejamos os assaltos, que parecem mais violentos hoje do que antigamente, ou então o índice de depressão que temos hoje em dia. 
   
Stephen King trabalha no manuscrito do livro
desde 1970
No livro, Big Jim utiliza quase exclusivamente da manipulação e do afloramento do ódio para unir e manipular a população a favor de seus planos. Ao longo da trama é possível notar as artimanhas que buscam a fácil união pelo ódio e a presença de bodes expiatórios na antiga pacata cidade de Chester’s Mill. Stephen King trabalha a extensão desse sentimento, como a natureza humana reagiria em uma situação extrema de isolamento do mundo e em como as situações e os pequenos conflitos odiosos tomam proporção conforme a trama avança. O final e as explicações da redoma, no entanto, parecem um pouco fora do escopo da trama ou passam com rapidez.

No entanto, Stephen nunca teve a proposta de fazer um dos grandes clássicos cabeçudos, mas consegue levantar o questionamento ao longo de todo o livro com sucesso. O ódio irrefreável de certos agentes leva a comunidade para situações cada vez mais catastróficas, perigosas e homicidas. Por outro lado, King também assume que, às vezes, o ódio é a última solução possível e, se manejado, pode coexistir e servir para um bem maior. Como destaco por Pondé, se assumimos que sentimos, e é natural, não podemos deixa-lo solto. É pelo motivo do ódio existir, e às vezes ser a única opção, que devemos controla-lo e evita-lo para continuarmos a conseguir viver em sociedade.

Ficha Técnica

Nome: Sob a Redoma
Autor: Stephen Kung
Editora: Suma de Letras
Páginas: 960
Onde Comprar: Submarino, Saraiva, Amazon.
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¹ Aos interessados, aqui o link para a primeira das palestras: http://tinyurl.com/o4zgtdp


Arthur Marchetto escreve para o Nerdbucks e para o Estantário.

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