Nerdbucks entrevista André Kleinert, co-autor da Enciclopédia dos Quadrinhos


Olá leitores do Nerdbucks. Vocês já devem saber que estamos sorteando um exemplar da Enciclopédia dos Quadrinhos em parceria com a L&PM Editores (se não está, fique por dentro clicando aqui), e para que vocês conheçam um pouco mais sobre a obra, nós entrevistamos o seu co-autor André Kleinert, confiram como foi:

Murilo Burns (Nerdbucks): Como surgiu a ideia de criar uma enciclopédia dos quadrinhos e como foi trabalhar com o Goida?

André Kleinert: A primeira edição da Enciclopédia saiu em 1990, escrita exclusivamente pelo Goida, jornalista que é um grande apaixonado por quadrinho. Ele tem uma vasta gibiteca, além de vários livros relacionados ao assunto. Na época, não havia muitas obras brasileiras de pesquisa relacionadas a quadrinhos. Assim, essa primeira edição da Enciclopédia teve até um caráter pioneiro. Em 2004, entrei para o Clube de Cinema de Porto Alegre, onde conheci o Goida e nos tornamos amigos. Assim, conversávamos muito sobre quadrinhos, além de fazermos empréstimos mútuos de gibis. Um dia ele me convidou para fazer junto com ele a segunda edição da Enciclopédia e acabei topando a empreitada.


Murilo Burns (Nerdbucks): Nos conte um pouco mais sobre como foi o trabalho de pesquisa para o desenvolvimento do livro.

André Kleinert: Como fonte de pesquisa, usamos material de nossos respectivas coleções, incluindo HQ's, livros e revistas. Também consultamos alguns sites na Internet. Por vezes, ainda entramos em contatos com roteiristas e desenhistas para checar e completar informações. Entre pesquisar, escrever e editar, levou um período de 3 anos para o livro ficar pronto.

Murilo Burns (Nerdbucks): Vimos que o livro destaca de uma forma bem legal a história dos quadrinhos em nosso país, você acha que os quadrinhos nacionais ganharam mais visibilidade com o passar dos anos, ou que não temos mais tantas obras conhecidas como antigamente?

André Kleinert: Acredito que em termos de mídia os quadrinhos nacionais têm uma maior visibilidade. Os cadernos culturais de jornais e revistas de grande circulação falam mais sobre o assunto, há até cadeiras em cursos universitários abordando os quadrinhos. Há sessões em livrarias só para quadrinhos, havendo uma forte presença de artistas nacionais. Isso sem falar dos vários sites na Internet que tem as HQ's como principal temática. Por outro lado, com exceção das revistas da linha editorial do Mauricio de Souza, é difícil encontrar quadrinhos nacionais em banca de revistas. Nos anos 70 e 80, por exemplo, havia uma quantidade razoável de títulos brasileiros nessas bancas.

Turma da Mônica: Franquia de quadrinhos de maior sucesso no Brasil.

Murilo Burns (Nerdbucks): Por falar em fase atual, as grandes editoras americanas (DC e Marvel) estão realizando muitas mudanças nos últimos tempos, sempre gerando muita polêmica, agradando alguns e desagradando outros. Você acha que essas mudanças são válidas?

André Kleinert: Os quadrinhos de super-heróis são cultura de massa. Assim, para que tais revistas continuem circulando é necessário que haja um grupo razoável de pessoas comprando tais publicações. Dessa forma, acaba sendo vital que haja uma renovação na base de leitores, pois o mercado não pode depender para se sustentar somente de gente que está na fase dos 30 ou 40 anos. A forma de atrair uma gama maior de leitores é justamente promovendo essas mudanças. Sei que a cronologia dessas editoras tem toda uma mística, também admiro isso, mas acho que mais importante que isso é que se continuem publicando as revistas dentro de um padrão de qualidade considerável. É claro que nessas mudanças editoriais ocorrem algumas alterações meio picaretas, mas também aparecem algumas coisas bem legais. No reboot da DC, por exemplo, tivemos algumas séries com um padrão artístico muito bom, como o Batman do Scott Snyder e o Superman do Grant Morrison.

Murilo Burns (Nerdbucks): Agora falando de uma mudança específica que está desagradando muitos fãs. Por causa dos filmes, a Marvel está realizando muitas mudanças no universo das HQ's. Inclusive temos boatos de que eles estão deixando os X-Men e o Quarteto fantástico (dois dos grupos mais importantes da editora) por causa da briga com a Warner pelos direitos dos personagens para os filmes. Como você vê essa influência dos filmes no mundo dos quadrinhos? 

André Kleinert: No cômputo geral, acho muito positivo. Hoje em dia, temos muito mais crianças falando em Superman, Batman, Vingadores, Homem de Ferro, do que há 20 anos. E isso se deve principalmente a essas adaptações para o cinema. Como tu mesmo disseste, essa questão da Marvel deixar de lado X-Men e Quarteto Fantástico ainda está no terreno dos boatos. Eu particularmente até acho isso um pouco de cascata para criar expectativa nos fãs, pois a linha X-Men é uma das que mais vende dentro das publicações da Marvel. Como fã de quadrinhos, eu vejo que os fatos concretos dessa relação entre HQ's e cinema são muito mais animadores, pois os filmes motivam renovações nos quadros criativos das revistas, justamente para aproveitar que mais pessoas passarão a comprar as revistas daqueles personagens que são levados para o cinema, além de fazer com que saiam até mesmo material clássico desses personagens em edições especiais. É só dar uma olhada nas bancas e ver como saíram edições especiais nesse ano (2015) dos Vingadores em função do filme.

Pôster oficial da Marvel de 2015, sem o Quarteto Fantástico e os X-men.

Nilton (Nerdbucks): Ainda falando das grandes editoras, a Marvel e a DC acabam sempre esbarrando em dificuldades pelo seu formato “contínuo”, onde os personagens são "eternos" e muitas vezes acabam fazendo ciclos pouco criativos. Qual sua opinião sobre este formado “eterno”, que muitas vezes engessa grandes artistas?

André Kleinert: Acho que isso é muito relativo. Mesmo dentro dessas limitações editoriais, existem autores que conseguiram fazer ótimos trabalhos com personagens clássicos. É só saber ter jogo de cintura para usar sua criatividade dentro desse formato tradicional dos super-heróis. Dá para citar como exemplo positivo vários casos: Frank Miller com Batman e Demolidor, Ed Brubaker com Capitão América, Grant Morrison com X-Men e Superman, Mark Millar com Wolverine, Peter David com Hulk e Aquaman, Garth Ennis com Nick Fury e Justiceiro.

Murilo Burns (Nerdbucks): Atualmente nós vemos muitos quadrinhos underground na internet, e conseguimos achar muitas obras de qualidade, você acha que falta oportunidade para esses autores e artistas saírem do anonimato e terem suas obras mais reconhecidas?

André Kleinert: Na minha opinião, esses quadrinhos underground tem um caráter de inovações estéticas e contestações temáticas muito forte que faz com que dificilmente eles possam ser apreciados por um público mais amplo. E isso acontece com qualquer meio de expressão cultural que tenha esse caráter underground (literatura, cinema, música). São obras que estão à frente de seu tempo e que levam um tempo maior para serem reconhecidas por uma parcela maior do público. E isso sempre foi assim, mesmo antes da Internet. O Robert Crumb é exemplo clássico disso, pois por muitos anos ele era conhecido apenas por um círculo muito restrito de admiradores e só com o passar do tempo ele foi ganhando aos poucos essa aura cult que tem hoje.

Quadrinhos independentes (underground) fazem sucesso na internet e nos sites de financiamento coletivo.

Nilton (Nerdbucks): Sobre novas mídias, qual você acha que é o futuro das HQs nessa nova era de smartphones, computadores e tecnologias presentes 100% do tempo em nossas vidas?

André Kleinert: Nem sei se dá para falar em futuro porque na realidade as mudanças já estão acontecendo. As gerações mais novas (crianças e adolescentes) já não usam tanto o formato papel para ler qualquer coisa. Para elas, tudo é praticamente no espaço virtual. Assim, acredito que não dá para o artista depender exclusivamente do formato papel para promover e vender seu trabalho. Além disso, o formato digital permite algumass possibilidades criativas bem interessantes para os artistas.

Murilo Burns (Nerdbucks): Agora uma pergunta para mexer com os leitores de hoje que gostam de discutir: Qual você prefere, DC ou Marvel?

André Kleinert: Foi na primeira metade dos anos 80, quando eu estava naquela faixa entre a infância e a adolescência, que eu me apaixonei definitivamente pelos quadrinhos. E teve duas séries que eram as minhas favoritas e me motivaram a confirmar essa paixão: “X-Men” na fase Chris Claremont e John Byrne e “Demolidor” na fase Frank Miller. As duas, por sinal, saiam ao mesmo tempo numa publicação da editora Abril que era a minha predileta: “Superaventuras Marvel”. Bem, acho que isso responde a tua pergunta...
Esquerda para direita: André Kleinert, Iotti e Edgar Vasques em evento de divulgação.

Nilton (Nerdbucks): Teria como você nos indicar três artistas para ficarmos de olho? Pode ser brasileiro ou estrangeiro.

André Kleinert: Jeff Lemire, Danilo Beyruth e Sean Murphy.

Murilo Burns (Nerdbucks): Nós do Nerdbucks agradecemos pela entrevista.

André Kleinert: Eu também agradeço pela oportunidade. Falar sobre quadrinhos é uma das coisas que mais gosto de fazer!!

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